o cão, um poema de Portugal

O CÃO

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Um homem perdeu o seu cão
aquele que noite e dia guardava uma torre
que do seu alto congregava com um uivo na boca a paisagem
que do cimo de um monte convocava as estrelas vadias
o que enterrava ossos de vento para mais tarde os desenterrar em flor
o devorador de insectos
de areia molhada
o amante da cidade irremediável
das sarjetas que é para onde escorre a chuva
o que procura uma lua em qualquer lugar isolado da terra
o que marcava as árvores com a urina das estátuas
o que fareja cancros na flor universal
o que vomita com um olho triste o veneno dos homens
o que morde joelhos
o cão mascote que abençoa uniformes de guerra
o que fabricava sapatos para depois amorosamente os roer
o que há-de morrer na berma da estrada.

Lamento das ervas.

Poema: António Amaral Tavares
Fotografia: Robert Parkcharrison

*Leia mais poemas no blogue do autor: http://acasaquecaminha.blogspot.com/

pensando a Poesia com Mário Faustino

“…Na poesia está a origem das línguas.”

mariofaustino

- Que é poesia? Nenhum de nós pode pretender, lucidamente, apresentar, sobre isto, um conceito definitivo. O mais que podemos fazer é procurar estabelecer, discutindo o assunto por algum tempo, o que representa para nós, a esta altura, aquilo que chamamos de “poesia”. Jovens poetas que somos, em período de formação, não devemos frear nosso desenvolvimento com a construção de conceitos e definições pretensiosamente fixos e rígidos.

A beleza do mundo pode ser ou não ser, dependendo da habilidade do artista, captada através da música, da pintura, da escultura, da dança, ate da arquitetura que, felizmente para os arquitetos, é a arte menos sujeita a tais ingenuidades. Fixado esse ponto (em resumo: que não nos interessa, nesse momento, o conceito vulgar de “poesia” vagabunda, ave caprichosa pairando sobre o mundo, surgindo ou pousando neste ou naquele cenário ou objeto) podemos aproximarmo-nos um pouco mais de um conceito de poesia (arte poética, é claro) se dissermos que se trata antes de tudo de uma maneira de ser da literatura, ou seja, da arte da palavra, da arte de exprimir percepções através de palavras, organizando estas em padrões lógicos, musicais e visuais.

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Dionísios Ares Afrodites

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DIONÍSIOS ARES AFRODITES

aos deuses mais cruéis
juventude eterna

eles nos dão de beber
na mesma taça
o vinho, o sangue e o esperma

Paulo Leminski, p.43, O ex-estranho, ILUMINURAS, coleção Catatau

mariposas semânticas

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úmidas imagens
farol de pecados
fantasmas amados

almas sombrias
de minhas madrugadas
brumas e odores

pedaços de vida
de linho
de sonho

poros abertos
quentes, suados
cheiro gostoso de corpos salgados
mariposas semânticas
e cabelos lavados…

Carmen Silvia Presotto
*Arte: Mulher e Rio de Nestor Lampros
(www.nestorlampros.com)

FLOR

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A flor
colhida
no frescor
da manhã

amanhece
em vaso d’água
afogada
sem razão
e dor

a flor oferecida
fenece
em desencontro.


(Pedro Du Bois, inédito)

Leia mais poemas do autor em seu blog:http://www.pedrodubois.blogspot.com/