Archive for março 27th, 2007

Classificar livros???

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O caso “Hamlet”

Em primeiro lugar, acredito que livros não têm classificação. Eles se classificam por si só: os leitores têm a liberdade de classificá-los.

Hamlet, na minha opinião, cabe em qualquer estante. Em 1601, William Shakeaspeare escreveu sobre este Príncipe.

Sintam. Em plena Era Elizabethana, ele retrata mais do que uma época, retrata o quê, atualmente, não podemos recusar.

E uma vez que Hamlet – para mim – torna-se uma tradição, não se pode negar a ele à coroa de príncipe entre os intelectuais. Ironicamente, Shakeaspeare nos faz crer que ele é o intelectual dos intelectuais, representando a nobreza e o desastre da consciência ocidental.

Como Hamlet, reconstruímos um passado, já que os eruditos, os artesãos, os arqueólogos de hoje, sob seus efeitos, trabalham tantos outros feitos – eventos, obras – onde mergulhamos para seguir gozando da experiência deste príncipe que, de tão representativo, transforma a inteligência de quem com ele e sobre ele escreve e lê.

Não somente a inteligência ocidental ou oriental, masculina ou feminina, negra ou branca, mas a inteligência humana, que não cabe em si mesma. Já por isso, seu autor poderia ser considerado o primeiro escritor verdadeiramente multicultural.

Quem mais que Hamlet queria vingança? Quem mais que Hamlet aborda tão bem o mítico? Quem mais que Hamlet faz tantos ganchos de enredos? Quem mais popular que Hamlet por tantos milênios? E, principalmente, quem mais que Shakespeare viajou, trabalhou, suou tanto para ser menor que sua Obra?

Claro que, por trás dele, seu gênio nos oferece uma personagem sutil, volátil, dotado de suprema inteligência, emparedando-nos por séculos a um OLD BROTHER, que independente de teclas ou dígitos, seguia em caravana para difundir sua dramaturgia.

Ao lermos a peça teatral, pois, tornamo-nos Hamlet. Uma identificação que nos deixa atônitos, porque com ele sublinhamos que no mundo tudo tem um valor.“Seja tudo como for”, nos diz ele ao morrer e desde aí, sua literatura não morre.
De seus versos quantos revivem, quantos se representam, massivamente, quantos enriquecem, justamente, por saber que “o mais tudo é silêncio” ?

No mais, tudo pode ser retórica também deformada pelo uso de tantos sofistas. Leia este clássico e tire sua própria opinão. Afinal de contas, você é quem tem o poder da classificação, não é mesmo?.
Caso o pano caia, será impossível negar o consumismo deste Bardo, onde “ser ou não ser” será tudo-nada em um eterno claro-escuro.

Porto Alegre

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Um feliz aniversário não seria completo sem “O MAPA” de uma cartografia que guiou e segue guiando muitas mãos a catarem seus ventos com versos e sangue pelas ruas de nossa cidade.

UM RECANTO DA CIDADE

a Mario Quintana

- A Rua dos Cataventos –

Uma nave recorta a rua da Praia.
Magestic Casa Rosa no coração da Cidade.
Um quadro, tempo ladrilhado de mãos.

Primeiro um hotel acolhedor, cheio de viagens e trajetos. Depois, o ninho do Poeta, em cujos Postigos se debatem suas asas, suas palavras, o tic-tac da máquina de escrever com o ranger do lápis e papel.

Cataventos uma rua que é adorno. Colcha e retalhos, tecido com pedras de puro linho, botões de ares, pura esquina de muito andares…

Cataventos, palavras aladas que mergulham olhos nos cimentos.

Do tempo, um alívio d’alma, uma gota de café. No meio de uma respiração, pontos embebidos de noites. Chope acolhendo versos. Um vento desenhando imagens.
Lá toda a vida pode morar! Cidadezinha… Tão pequeninha que toda cabe em um só olhar. Em cada fresta. Em cada borrão. Em cada risco um poema imaginado para a página branca de susto.
Lá, as almas esfumaçam. Transparentes nos colocam no caminho dos “ Baús de Espanto” e por onde mãos andaram, colhemos Proust, Woolf, Elliot, Poe. Traduções seculares de um velho grafiteiro que há muitos anos desejou um reencontro com o fantasma da Ópera.

Rua dos Cataventos, a poesia é um sintoma do sobrenatural… e de ti surgiu um globo onde o mapa nos comprova que sonhar é acordar-se para dentro até o …dia exato alinhar os seus cubos de vidros… tuass nuanças de paredes são poros, histórias, onde cada pergunta faz os dedos ganharem vida. Olho as minhas mãos…os dedos são pétalas carnívoras. Poemas que o vento mistura e dispersa no ar….

Cataventos, uma passagem entre pórticos – Uma Rua Fantasma – casa que elimina sótãos e porões, abrindo suas janelas para que o sonho do poeta encontre abrigo e voe “ ao fundo do barco, sob o silêncio do Céu… Grita o Poeta!… Amigos… Vou sepultar-me… Assim, vive para sempre. Uma Rua nos espalha aos ventos: Ave, Vidráguas, Quintana!

Foto: Pedro Chagastelles

Vidráguas

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Porque chove…
Tudo é água
que empoça e embacia
Tudo é lágrima
que sublima, condensa e lava

Porque choro…
Chovo mais que o céu
Transbordo-me
Parto palavras como se ossos se liquifizessem

Porque chove…
Versejo em gotas de ilusão
Espanto as horas mormacentas
Granito janelas na rua

Porque chove…
Salpico meus pesadelos
Nessas vidráguas, encontro a poeta
Brindamos vidros com água…
Uma de nós ganha liberdade.
Poemar, prosar, cantar, vidraguar é brincar com as vozes, fazer uma aeróbica verbal, ler em situações insólitas o momento entre vogais. Dar cor à fonética para que a leitura não seja branca, vazia.
Vidraguar é lamber o invisível para ancorar as imagens com a escrita. Dar voz ao sentimento para aprender a reler o que o olho de vidro não capturou com a boca.
Vidraguar é uma dança de anáguas que joga o poema a muitas mãos que rompem o silêncio… versos que conversam vestindo vidros d’agua, feito peles envoltas de palavras…

E Vidráguas é sal e voz na gola do mar… Uma palavra justaposta, um projeto, na correnteza e no sussurro dos dias porque dentro do mar tem rio…
Um abraço carinhoso,

Carmen Silvia Presotto

Dezembro de 2006

Foto: Ricardo Hegenbart

Há quanto tempo você não escreve ou recebe uma carta?

Incrível, nos dias de hoje se estar falando de selo, envelope, caminhadas ao correio.
Mas, por aqui ganhamos tempo e seguimos o que Clarice Lispector e Fernando Sabino sempre fizeram… Claro, que faltara o bucólico, no entanto sempre poderemos estar em correspondências.

Hei, não esqueçam! Hoje Chico Buarque estará chegando ao nosso alegre porto, quem sabe não lotemos as caixas do Sheraton Hotel com palavras?
Senão, lembrem-se de que sempre há Pedros Pedreiros e muitas mulheres de Atenas espiando o encontro marcado.

Aqui, segue uma a Maria Bethania,agora é com vocês: escrevam!

Querida Poeta!

Vidráguas… Oxalá, como nos diz o “poetinha”!

“Dentro do Mar tem Rio…” Um dia em Porto Alegre não ouve retorno, o microfone emudeceu, talvez fosse a concha do ouvido do Guaíba que ressoasse junto a tantas “vozes” que, querendo ser cantadas, congestionaram as linhas de ondas…

Bem, querida Poeta, ao escutar o que disseste, envidragaram meus olhos: “os poetas têm que estar nas Escolas, têm que estar nas leituras dos jovens, têm que estar conVERSANDOcom LIBERDADE como nos sopraste com Sophia de Mello Breyner Andresen: O poema é A liberdade/ Um poema não se programa/ Porém a disciplina – Sílaba por sílaba – O acompanha / Sílaba por sílaba/ O poema emerge – Como se os deuses o dessem/ O fazemos.

E por acreditar nas palavras, por acreditar no cantar que conversa publicamos EnCaixes – um livro de poesia, editado por Vidráguas, junto a emoções que me fazem seguir enviando o que vivo, o que projeto, o que desejo a outros olhares sensíveis para que uma nascente sempre siga em busca de sua foz: ave poesia!

Por isso, a chuva bate na janela
trazendo o cheiro da rua molhada.

Junto à soleira, um canto, uma morada, mãos em ninho onde pássaros vêm matar a sede.
Muitos voltam, batem suas asas pelo calor de vidros… Outros, nunca dão respostas, nem lêem, preferem as pombas metálicas ou o tilintar das moedas, ou são palavras furadas, ocas…

Por tudo que escuto e vibro junto a ti, penso que no dizer de alguns momentos, teu poeta junta acordes com água, perfurando a retina, pirata de palavras, deixando que a alma derreta o ouro perdido no ouvido e porque cantas, embacias as tristezas, salpicando pesadelos, cata palavras como quem cata a vida suada, a vida de amanhãs que escorre por cada ladrilho sem sol.

Carmen Silvia Presotto