Recebemos este texto do Prof. Walter Galvani.
Para mim, foi mais que uma crônica, foi vidráguas em poematerapia, marcando a sincronia de um tempo.
Também tenho um fusca, que hoje se encontra na UTI, passando por uma cirurgia estética , após ter virado um sanduíche voador entre dois fiats.
Bem vindas palavras, fiat lux, que transformam tragédias em mais do que um caso de latas velhas em um caso de amor.
Ricardo Hegenbart

Texto: Walter Galvani
Tenho um caso de amor com um “Fusquinha” (sim, todo mundo de determinada faixa etária já o teve…) mas, o meu existe a pleno. Como não poderia deixar de ser, minha relação com ele é pontilhada de beijos, abraços e rusgas. Hoje tive uma dessas.
Trata-se de um “Fusca-75”. Ele não foi adquirido por desvelos automobilísticos ou paixões mecânicas. Nada disso: teve a sua compra um fim bastante utilitário, embora não o negue, azeitado pelo amor. No caso de amor meu (e de minha companheira) pela netinha Isabella, cujas aventuras verbais e comportamentais, cansei de narrar aos meus alunos de Crônica ou de Biografia, por aí, pelo mundo, na Unisinos, na Uergs, nas feiras de livro.
Acontece que morando em Guaíba, decidimos (eu e Carla, minha amada companheira de jornada nesta vida) que a melhor maneira de transportá-la para a escolinha ou para a pracinha, seria comprando um carro de menor preço. Foi quando nos deparamos, em mãos de um amigo, mas por acidente de procura nos classificados, com um Volkswagen 1300, modelo 1975. O preço era bom, compramos. E desde então ele tem recebido carinho e atenções, em nome da Isabella, afinal é o “carro dela”.
Com o deslocamento dos familiares para uma pequena estada fora, tocou-me por alguns dias, ficar com o “Fusquinha”. Coisa que fiz com o desvelo que ele merece como “objeto do desejo” dos colecionadores, embora não seja o meu caso, mas repito, como conservador daquela preciosidade. Ele nunca me traiu, durante todo este tempo, até que semanas atrás um pneu arriou e tive de tomar providências à distância. Problema resolvido com um vizinho que “não existe” (mandou fazer o conserto e recolocou o pneu no lugar) eis que esta manhã, dia 24 de abril, o Fusca resolveu não atender meu apelo e “morreu”. Quero dizer, “morreu o arranque”. Não precisei empurrá-lo, para tanto me ajudaram os responsáveis pela garagem onde ele dormiu, mas ele já vinha me avisando, com engasgos inesperados no trânsito que algo ia mal com seu sistema digestivo, a gasolina estava intragável, parece e, finalmente, com a teimosia em tossir e negar o arranque ontem no final da tarde.
Dormi profundamente e me esqueci do problema até que, pouco antes do banho e do café, voltou-me à consciência o problema da véspera e alojou-se em minha mente o medo de que ele se recusasse a me transportar nesta manhã de terça.
“Levá-lo-ei ao médico, digo mecânico – pensei comigo mesmo. (Aliás, que expressão é esta, não é mesmo, com quem mais poderia pensar, a não ser comigo mesmo?)
Pois foi o que tive de fazer. Fui lá na garagem, precisei de auxilio, e os rapazes, atenciosos, me ajudaram sorridentes, até fazendo brincadeira um com o outro, julguei-os felizes por aquela ocorrência matinal e me mandei para o mecânico.
Lá está o Fusca da Isa, agora. Se ela me falar ao telefone, direi que o “Fusca” foi ao medico. Dormirá lá na oficina esta noite. Amanhã estará rodando impávido pelas ruas da capital (e de Guaíba) chamando a atenção pela sua limpeza, estado técnico e aparência. Não liguem, não se trata de paixão ou “volksmania”, mas de um caso de amor pela neta e pelo “carro dela”.