Que moderna tribalidade…
Enquanto mentes e corações em paz zelam por um hipotético paraíso, o progresso que chegou à Lua, transpôs a barreira do som, navegou sobre todo o universo, não percebe as estrelas, não ascende às suas chamas, continua apagado e bárbaro.
Nada mudou!
A sede de patentear a criação, apesar do iluminismo, permanece desde um sempre. Pisa-se outros solos, flutua-se em voláteis matérias, mas o homem das neves e cavernas sobrevive, afastando-se cada vez mais do amor e da natureza.
Pior! Ele anda se alimenta de outros pelo simples primitivo instinto de ser em um, o ser superior, tipos canibais que engolem outros como se fossem seus próprios venenos.
Simplesmente, porque não se percebem como seres de sangue quente em carne osso, provocam furacões, enchentes, secas. Promovem nocautes de chuvas ácidas, ardem doentes e sem ar alertam sobre a possibilidade do surgimento de um ser mutante na espécie.
Que moderna tribalidade!
E atrás deles vou eu… e vai toda horda humana, colhendo junto o desrespeito por alisar demais o ego, esquecendo que o eu, mais o tu e o ele dará o nós e talvez uma pacífica harmonia de conviver.
Tudo indica que para isso basta ser simples. Basta se perceber na diversidade. Se somos iguais em tese ou fabricação, na realidade espaço-temporal somos sociais a partir dessas diferenças sanzonais.
Então, vivas as diferenças, através delas não precisaremos mais de botões, ships, ilusões que nos globalizem. Emocionalmente ligados, a geografia humana sobreviverá somente da imagens dos outros, dos reflexos, onde espelhos, além de coisa, ilustra a ficção de estar na telinha, estar no micro, na vitrine de um estar no mundo e seguiremos…
Mas, como sentir-se vivo com tanta falta de contato, de tato, de paladar, sentidos sensoriais que nos humanizem e que, por momentos, parecem esquecidos e atrofiados?
Eis o perigo!
Breve, precisaremos só de dedos e coisas como cor, carne, arma já não expressarão racismo, pobreza, guerra e sentimentos seguirão programas de entretenimentos… Para isso, basta seguirmos expectadores perante toda a inércia que a modernidade coloca. Colocando distância da realidade, impomos o caminho para seguirmos o crédito de que certas mortes e fatos só acontecem aonde poderosos querem que vejamos: Via satélite!
E se ao noso lado houver crueldade e violência, será que acreditaremos? Tudo pode ser uma invenção midiática, talvez mal capturada em leitura de nossas retinas…
Se não conversamos, vá saber o que há por trás dos olhos?!
Em caso de perturbação, insônia, uma drágea e um bom sono resolverá tudo… Não devemos mais sonhar, por isso, fecho os olhos e me desligo da máquina, ausento minha culpa com esta implicação. Também eu não existo, porque também não posso ser social se sou, somos, apenas mais uns no deserto da vida?
No entanto, acordada – acordados – massas dessa manobra, desvendemos os antigos livro de receitas, onde misturados os ingredientes com os que primeiro nos habitaram, talvez seja possível uma ligação com a origem, uma piscar de olhos que nos sopre que para morrer basta estar vivo e continuar acreditando que Brás Cubas é tão real em Memórias quanto O Grande Sertão em Veredas…
Carmen Silvia Presotto










