Archive for junho, 2008

Que moderna tribalidade…

Enquanto mentes e corações em paz zelam por um hipotético paraíso, o progresso que chegou à Lua, transpôs a barreira do som, navegou sobre todo o universo, não percebe as estrelas, não ascende às suas chamas, continua apagado e bárbaro.

Nada mudou!

A sede de patentear a criação, apesar do iluminismo, permanece desde um sempre. Pisa-se outros solos, flutua-se em voláteis matérias, mas o homem das neves e cavernas sobrevive, afastando-se cada vez mais do amor e da natureza.
Pior! Ele anda se alimenta de outros pelo simples primitivo instinto de ser em um, o ser superior, tipos canibais que engolem outros como se fossem seus próprios venenos.
Simplesmente, porque não se percebem como seres de sangue quente em carne osso, provocam furacões, enchentes, secas. Promovem nocautes de chuvas ácidas, ardem doentes e sem ar alertam sobre a possibilidade do surgimento de um ser mutante na espécie.

Que moderna tribalidade!

E atrás deles vou eu… e vai toda horda humana, colhendo junto o desrespeito por alisar demais o ego, esquecendo que o eu, mais o tu e o ele dará o nós e talvez uma pacífica harmonia de conviver.
Tudo indica que para isso basta ser simples. Basta se perceber na diversidade. Se somos iguais em tese ou fabricação, na realidade espaço-temporal somos sociais a partir dessas diferenças sanzonais.

Então, vivas as diferenças, através delas não precisaremos mais de botões, ships, ilusões que nos globalizem. Emocionalmente ligados, a geografia humana sobreviverá somente da imagens dos outros, dos reflexos, onde espelhos, além de coisa, ilustra a ficção de estar na telinha, estar no micro, na vitrine de um estar no mundo e seguiremos…
Mas, como sentir-se vivo com tanta falta de contato, de tato, de paladar, sentidos sensoriais que nos humanizem e que, por momentos, parecem esquecidos e atrofiados?

Eis o perigo!

Breve, precisaremos só de dedos e coisas como cor, carne, arma já não expressarão racismo, pobreza, guerra e sentimentos seguirão programas de entretenimentos… Para isso, basta seguirmos expectadores perante toda a inércia que a modernidade coloca. Colocando distância da realidade, impomos o caminho para seguirmos o crédito de que certas mortes e fatos só acontecem aonde poderosos querem que vejamos: Via satélite!

E se ao noso lado houver crueldade e violência, será que acreditaremos? Tudo pode ser uma invenção midiática, talvez mal capturada em leitura de nossas retinas…
Se não conversamos, vá saber o que há por trás dos olhos?!

Em caso de perturbação, insônia, uma drágea e um bom sono resolverá tudo… Não devemos mais sonhar, por isso, fecho os olhos e me desligo da máquina, ausento minha culpa com esta implicação. Também eu não existo, porque também não posso ser social se sou, somos, apenas mais uns no deserto da vida?

No entanto, acordada – acordados – massas dessa manobra, desvendemos os antigos livro de receitas, onde misturados os ingredientes com os que primeiro nos habitaram, talvez seja possível uma ligação com a origem, uma piscar de olhos que nos sopre que para morrer basta estar vivo e continuar acreditando que Brás Cubas é tão real em Memórias quanto O Grande Sertão em Veredas…

Carmen Silvia Presotto

Para seguir conversando:Julio Cortázar…

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POESIA DA IMAGEM

jogo_de_amarelinha
Por Tânia Du Bois

Buenos Aires é especial e nos recomenda uma visita à Praça denominada Julio Cortázar. A praça tem esse nome em homenagem a um dos maiores escritores argentinos de todos os tempos.

Três manifestações de modernidade incidiram na formação de Cortázar: o romantismo, o existencialismo e o surrealismo.
Sua principal obra é O JOGO DA AMARELINHA (RAYUELA), que o marcou de forma indissociável dentro da narrativa contemporânea. “…as fronteiras terminam e os caminhos se apagam…”

Praça_Julio_Cortazar

Na praça Julio Cortázar, estão concentrados restaurantes, bares e, principalmente, redutos de artistas alternativos, como os artesãos “chiques”.
Encontram-se belas obras de arte e, entre elas, destaco o artista plástico MIGUEL MATEU com sua tela surrealista LA MODELO, nos tons da paixão e de sentir o coração em liberdade; uma inspiração que ilumina, com certeza: uma verdadeira poesia da imagem.

Na surpresa da curva, abre-se para a Rua Jorge Luiz Borges, com seu casario dos anos 30/40; parece suspensa como nas telas e bonita como um poema, digna da homenagem ao nosso poeta Borges. E, ainda, regado ao som do maestro “tanguero” Astor Piazzolla: uma verdadeira imagem da poesia.

A praça Julio Cortázar brilha ao confrontar a participação do escritor, pintor e o músico, com os diversos modos de se encontrar com o público no mesmo espaço: uma verdadeira imagem da poesia.
É uma tradição a sua feira semanal; ter o encontro marcado com a cultura: uma verdadeira poesia da imagem, como encontramos neste poema de Borges:

“Um pintor prometeu-nos um quadro
… senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos como um sonho. Pensei no homem e no quadro…

BORGES

Pensei em um lugar prefixado que a tela ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, … qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim…”

Psiu! Leiam mais crônicas de Tânia Du Bois em http://aqueiva.wordpress.com/, que hoje também está desvelando uma Insólita Valise de Carmen Silvia Presotto.

Fábulas

Olhos_brilhantes
(foto cedida, pelos pais, para publicação em Vidráguas)

Ah! As fábulas
São mantos
De encanto
E prazer
São recantos
Onde a alma
Infantil
Vai buscar
Alimento para
O seu vir a ser
Fábulas são pura
Poesia
Jazem vivas,
Dispostas a
Todo o dia
Dizer-nos
Versos, lições
Miríades.
Sobrevivem a rotina
Fazem eco
Ao ser que um dia
Foi buscar
Sua alma-guia
Nas teias
Da Via láctea.

Fábulas me dizem
Tanto
Falam comigo
Sempre
Lembram
de um tempo ausente
memórias já tão
distantes
da aldeia da
minha infância
me encantam
por serem curtas
e ao mesmo tempo
profundas.

Ouço ainda agora
O som, a voz
De seus personagens
Criados na minha
Mente
De forma pura
E carente
De saber
Que a vida
É vertente
De água boa
Límpida e cristalina
De acreditar
Que essa vida
Mesmo tão dura e sofrida
Vale a pena
Ser vivida.

Fábulas são
Salva-vidas…

Ingrid Cañete

Escrevi na noite de 15/06/08, num momento de profunda reflexão, talvez com saudades de estar a sós com minha criança interior…

Geada

rosa_com…

Numa manhã cinza e fria de rigoroso inverno,
uma inocente rosa pensou que podia acalentar rude estação,
e desabrochou linda, como um sorriso terno.

Mas, o inverno não lhe concedeu lugar em sua gélida razão
e, num massacre, suas tenras e macias pétalas queimou.
E a natureza, que se supõe ter a inteligência de Minerva,
a tarefa de seu servo, num lampejo de consciência , vislumbrou.

Mas, manteve seu disfarce de quem não erra e não se enerva,
ciente de tão mesquinha obra, da qual também compactuou.
E, na altivez de um déspota que não pode dispor de seu orgulho,
covardemente camuflada no escuro da madrugada, então chorou
cobrindo os frágeis restos de uma rosa, com gotas congeladas de orvalho.

(Américo J. Q. Conte)