Archive for julho 17th, 2008

Como gomos de bergamota…

bergamotas ao sol
(foto arquivo pessoal_vidráguas)

Isso mesmo! O que era fruta se acabou. Amassa-se um papel e um temente estômago ronca, avisando o fígado para que se prepare, pois um prato de bergamotas está rondando a sala, quando um coração se aproxima.
É… às vezes, ver uma bergamota é poder construir um mundo irreal. Ir além da fruta para sentir algumas sementes escondidas, sabedorias, que sem cascas se fragmentam em símbolos e idéias.

Através de várias mãos, tem-se uma visão além do fato. Distribuir gomos é saborear o encontro de uma divisão. É compartilhar por palavras, olhares e gestos os pensamentos, onde o ato de escrever se torna um místico alimento, recheado de sabores e odores.

Retorcendo fios, saboreio esses viveres e teço vínculos que me levarão a uma real(i)dade. Alinhavando de hojes meus amanhãs, crio salas sem portas e janelas. Percorrendo ruas e saídas, encontro olhos em escuta. Cresço. Cada ser humano ao meu lado, pode ser um dobrar de esquinas, um infinito, um sonho, um desejo, uma vida, um néctar a enriquecer páginas e escrituras.
E, se há em mim um corpo, que cansa, envelhece e se deteriora, então tudo é transitório, menos minha imaginação… Então, basta estar ligado. Basta escutar-se. Basta perceber-se. Em todos há algo mais do que nós mesmos, por isso enquanto minha alma mexerica nesses agridoces momentos, pulso por novos horizontes como gomos de bergamota…

Carmen Silvia Presotto, Dobras do Tempo, pg 41.Livro editado, em 2001, pela Editora Alcance.

E, com esta crônica e(ou) quase-conto, saúdo à Revista de Inverno- ZH, uma nova estética, na cidade, para aquecer o olhar gaúcho em Histórias da Estação.
Vidráguas à Paola Deodoro, pela Edição, toda equipe e a Carlos André Moreira, pela crônica de hoje que , para mim, soma-se em letras a mais um precioso suco, feito estes gomos de bergamotas no sol…

MÁRIO QUINTANA: O poeta diante da sua própria arte

o poeta diante de sua própria arte
por Tânia Du Bois

Estamos comemorando o seu aniversário de nascimento, a ocorrer em 30 de julho – uma oportunidade para relembrar a sua intensa vida de trabalho, de emoção, que possibilita a realização integral de seus sonhos de luz, de liberdade e de felicidade em outro plano.
Quintana foi um poeta muito especial, que nos permite penetrar surdamente no reino das palavras quintanares e passear pelos seus textos como quem conversa com um amigo.
A reunião de alguns de seus textos permite a visão do seu percurso: o poeta diante da sua própria arte:

1 – Preto no Branco
“A arte de escrever é; por essência, inerte e tem sempre um quê
proibido: algo assim como essa tentação irresistível que leva os
garotos a riscar a brancura dos muros”.

2 – A Rua dos Cataventos
“Jogos de luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…”
Primeiro livro de poemas, mostra como o poeta vê a vida de maneira
simples e mágica

3 – “De Sonetos e de Canções”
Uma das características de Mário Quintana é a melodia de seus
versos. Sua poesia extrai das palavras as propriedades musicais e
através do som e do ritmo constrói significados.

4 – O Diálogo entre o Poeta e a Rua
“Dorme ruazinha… É tudo escuro…
Em meus passos, quem é que pode ouvi-los?”
A exploração da musicalidade presente nos sonetos.

5 – XI “Passos da Cruz”
“Não sou eu quem descrevo
Eu sou a tela
E oculta a mão colore alguém em mim”
mario_quintana uma eterna ave
(imagem arquivo pessoal_Vidráguas)
O poeta funde em poesia a sua sensibilidade associando a poesia à
arte.

6 – O Mapa
“Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia do corpo…”
Esse poema fala de lugares, ruas, bairros e estão relacionados a
diferentes lembranças.

7 – Na Volta da Esquina
“Os sorrisos mais encantadores que a gente recebe na vida são os
desses candidatos em vésperas de eleições”.
O eu-lírico presente no texto “sorrisos” com uma pitada sobre
política.

8 – Ora Bolas
Segundo Luís Fernando Veríssimo, Quintana dizia muito “ora
bolas”, que era o seu desabafo de mil utilidades – é um livro que
reúne o humor cotidiano.

9 – Dos Livros
“A duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que
esgotam os leitores”.
É interessante como o poeta dá dois sentidos ao texto: um do tipo
de livro que se lê e o outro que se baseia na experiência pessoal do
leitor.

10 – O Auto-retrato
“No retrato que faço
– traço a traço –
as vezes me pinto nuvem
as vezes me pinto árvore”.
O poeta sempre brincou com o mistério das palavras.

Mário Quintana, grande poeta, o mais solicitado pelos estudantes, o mais lido no país. Sua influência entre os jovens sempre foi – e é – real e vivenciada, como mostra o poema escrito por minha filha, Marina, na sua juventude:

TARDE À QUINTANA

Hoje não pude te avistar
nem tive notícias d’além mar
E tem aquele meu pedaço
que vai viajar
sem poder comigo estar
quando eu mais precisar…
… Para me acobertar.

Bobagens a fazer
vontade de enlouquecer
de desaparecer…
… como o sol, que sumiu
Deixando-me uma tarde chuvosa
que lembra Quintana:
“E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim
Parece que vou sofrer
Pirulim lulim lulim”.

Para Quintana, escrever era a sua maneira de comunicar-se com o mundo. Hoje, a certeza de estar vivo. E sempre lembrando o que o poeta deixou em Dupla Delícia: “O livro traz a vantagem de a gente estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.
Ao consagrado poeta, companheiro de todas as horas, minha deferência, com suas próprias palavras em Versos Perdidos: “Eu te amo a perder de vista”.

Querida Tita,
uma crônica em comemoração ao aniversário – este mês – do Poeta.
beijos,

Tânia

Em nome de Vidráguas, um abraço querida amiga e companheira de cartas e versosqueconversam…
Carmen Silvia Presotto