Archive for outubro, 2008

Um beijo

can can

Quando a lingua age
o céu geme
dedos salivam
e poros desviram retinas

Quando o hálito envidraça meus olhos
embaciam as janelas do ouvido
emolduro os sussurros
perco-me

Quando a boca some,
sem meias palavras atravesso outro corpo
seda pura
fio odores
mel
no colo da noite,
banho-me de linguagem, pontos sem meios ponteiros, te beijo…

Carmen Silvia Presotto e VDW em Poemas Hológrafos, versos em reversos.

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Happy Halloween

Halloween
happy Halloween

É sim, é halloween!
Então se prepare para o festim.
As bruxas estarão soltas
e os fantasma também,
transpondo os portais ínferos
que nos acessam ao além.

Não descuide das abóboras e velas,
fartura de doces e danças.
Na força de um ritual milenar
festeje com a alegria de uma criança,
se desfazendo das energias nocivas
e abraçando as boas causas com esperança.

Américo Conte

Créditos da Foto:
Nome: Halloween I
Autora: Ana Almeida Santos
Site: http://olhares.aeiou.pt/halloween_i/foto1557816.html

Antes que seja tarde…

Metade do que sou inventei na infância; a outra metade, a infância tratou de inventar.
Fabrício Carpinejar
jardins vicent-vangogh
Tela de Vicent Van Gogh

Minha avó, no fundo do prato me assombra… Atravesso o momento. No silêncio, percorro as bordas de sua história. 50 anos e seu olhar ainda me persegue. Miro longe e vejo a cristaleira espelhando a compoteira entre tantos cristais.
Segundo a lenda familiar, tudo que era porcelana, pintada a mão com contornos dourados, viera dos Belgas e com eles, chegamos a Lavras do Sul. Início do século passado e nascimento desta história.

Junto a tantas escavações de pepitas e minas de ouro, sorvo os ventos e troco a alma, a roupa e o momento violáceo que agora me reporta à sala em que tomávamos o café da tarde, acompanhado pelos pãezinhos de minutos, lambuzados com geléia de uva.
Ali, escuto o cabide escuro, com chapéus e bengalas desesperados que sempre nos aguardava. Éramos 5 os primos, cada um em um ano escolar. O meu primo favorito era o da primeira série ginasial, pois ele sempre nos pregava peças e antecipava fatos, que, no mínimo, anos depois comprovaríamos ou marcaríamos como imitação de marcadores de páginas viradas.
Mas como em todos os anos, depois de dois meses juntos e de muitos banhos de arroios, chegava o momento de cada um pegar o seu vagão, e na estação ferroviária acenar para aquela mão que nos despedia das férias. Ela nos acenava como se quisesse apagar o tempo para que na primeira curva, tombássemos o ano letivo e logo estivéssemos de volta.

A cada retorno à casa de vovó, buscávamos o cabide, que agora vazio, preenche o fundo do corredor, junto a bacias de porcelanas e latas velhas de figadas. As bengalas e os chapéus ganharam mãos e pernas, mas em nossas cabeças ainda passeiam os cafés da tarde, testemunhados pelos anões de jardim que guardavam as roseiras.

E se viver é um financiamento de alguém, escrever passa a ser nosso empréstimo de humanidade, por isso compartilhar tudo me sussurram suas memórias…

Hoje, não mais nos reunimos em Lavras, mas na capital para a despedida do olhar inquietante, que com 90 anos nos deixa boquiabertos, em frente ao tema que nos perderá de vista.: o amor!

Sim! Vovó se foi, e em minhas mãos bailo por suas memórias, um mergulho piegas no poço onde uma canequinha esmaltada saia babando, como se tivesse sem fôlego pelo esforço da corda que de tanto ranger, expelia um cheiro forte manchado de estopa e sereno, e ávidos porque a sede sempre fora real, bebíamos daquela água cristalina com o forte ruído dos que bebem sopa com biscoito e entre suas colheradas, me lembro dos mingaus com farinha e frutas amassadas numa época de epidemia, quando o normal era dar um cedo adeus à família.
Pois bem, ela, além de quebrara regra, nos fez acreditar que um coração frágil é o motor de tudo, porque bastou um piscar de olhos para ela me encontrar, antes da parada cardíaca e dizer: tudo por amor, 90 anos e com amor!

Carmen Silvia Presotto, agosto de 2007, revitalizando escritos, para driblar o Dr. A.Alzaimer.
Assim, palavras e sentimentos seguirão sempre um poço vivo de memórias ao vento… Tomara!!!

Meu bem

Meu bem
Viagem França-2008
olha meu bem
só quero o teu bem

fazer comidinha
enfeitada na tigela azul

roçar a mão lenta
rente a barba gris

plantar uma cor retrô
no miolo da boca

fazer cafuné
no teu pé
no lençol de flor

segredar no ombro pálido
fazer amor
te comer meu bem

Arte e Poesia de Isolde Bosak

Vidráguas ao dia do Livro, este cidadão de sempres…

O que é Vidráguas, a não ser uma busca diária entre Livros?
VIDRAGUAS
Sabedores de que os primeiros livros eram feitos em barro, e que os primeiros manuscritos são raros. Numa tentativa de reaproximar mundos, leitor e obra, com este trabalho, busco tecer uma analogia entre o nascimento do livro ao nascimento de um humano. Os dois têm como ponto de partida uma Escritura, isto é, um tempo e um espaço, um Corpo Físico e Simbólico.

Segundo a Bíblia, é do barro que surge uma cópia divina do que seria, ideologicamente, a invenção do humano. Já, a Ciência nos anuncia que “é um Humano que construirá o próprio humano”. Portanto, uma vez que tudo que nasce está para ser transformado, se poderia dizer que quem diz cópia diz erro. Seja através da criatividade, seja através do próprio tempo, se poderia conjecturar que um Livro é uma porta, um trabalho, um berço para que outros renasçam.

Então, para que um Livro nasça, mais além da imaginação e da inventividade que é atribuída ao autor, necessita-se de uma aproximação do leitor à Obra Literária, uma vida tecida entre vidas. Independente da idade, ao abrir um Livro sempre estaremos diante de um jovem leitor.
Os livros, as leituras vão além: aproximam pólos distantes: Oriente e Ocidente. Jovens e velhos. Gerações. Sincronia e diacronia unem o que acreditamos ser possível: imagem – palavra – em ação, levando-nos a rever o próprio espaço e o tempo de quem os lê, de quem os escreve ou os escuta.
Entrecruzam culturas, gêneros literários que, além da narrativa, vão caracterizando funções míticas do próprio mito, o Livro, uma materialidade que nos move a rever a Linguagem e, seguindo o que nos diz Umberto Eco, argumentam-nos a “emendar-se continuamente como uma prática recomendável”.

Cada capítulo, traz uma cena às palavras que vão sendo colocadas. E uma vez que o simbólico, vai se identificando com a própria existência. Percebemos que em qualquer linguagem, este mesmo simbólico é arte que nos subverte, porque ao nos contrapor fenômenos, culturas, muito diversas entre si, também nos hibridiza, aproximando-nos para não seguirmos lendo de uma maneira ingênua, propiciando-nos uma nova maneira de ler, emitiremos alguns erros, porém erros para seguirem cruzando caminhos.
Lendo, vamos percebendo que a Escritura é um trabalho, onde o duplo sentido deve ser decifrado. Tendo em conta a alteridade que nos leva à metáfora que não pertence à ordem do simbólico já que ela é uma criação, uma comparação mental, e será ela quem nos deslocará às múltiplas interpretações e a outras re-significações.

Dos sujeitos ao objeto, surge uma cartografia, composta por datas, épocas, cores, signos, sintagmas, paradigmas, significantes, DNAS, cuja história narrada vai abrindo mundos desde uma significação mítica a uma universalidade.
E para que um livro seja mais do que um amontoado de folhas, mais do que um simples mapa, ele necessita ter um papel, uma marca. Assim, como o humano, para ser alguém além de carne e osso, necessita mais do que uma certidão, necessita cuidados, aproximações e carinho com sua arquitetura.
Portanto ser um veículo, um mundo, pede que as relações do fazer e de quem faz sejam forças de trabalho, características de quem não se basta por ser imaginado ou idealizado. Estes para existirem têm que expressar suas impressões, projetar um plano que não os “achate”, dessa maneira respirarão e co-habitarão para si e para outros tempos e histórias.

Um Livro e um Homem para existir têm que atuarem. Estar na Escritura, na Vida, em Memória, registrando, desde as capas sua função de vestir imagens e peles, páginas de rosto e anexos, que lhe darão proteção junto a nomes e inscrições que vão abrindo fronteiras, destinações e destinatários, onde o significante se converta em elemento significativo do discurso que determinará os atos, as palavras e o destino de um sujeito sem que ele saiba.

Saussure dividiu o signo lingüístico em duas partes. Chamando significante à imagem acústica de um conceito, ressignificado ao conceito em si. Desde ai, sabemos que o signo lingüístico une um conceito com uma imagem acústica e, também visual, a uma coisa com um nome. Por outro lado, sabemos que o signo forma parte de um sistema de valores, que será medido por sua relação com todos os outros signos.
Portanto, não seria preciso que se descodificasse o mito e que ele fosse traduzido numa fórmula abstrata, como tentou fazer Lèvi- Strauss com Édipo. Pois, isso reduziria o mito justamente àquilo que ele não é, a uma pura lógica conceitual.

Já no plano existencial, onde o “amor desejaria a eternidade e a liberdade, mas esbarra no limite”, por que não tentar?

E que diferença teria este amor com um nascer de um texto ou com um nascimento de um bebê, onde padrinhos, enxoval, batizados e ritos de passagem vão especificando nomes, posicionando, objetivando o que antes era apenas projeto de um mundo imaginário?
Portanto, os dois, texto e homem, necessitam serem simbolizados, ganhar contornos físicos em uma realidade objetiva, direcionando o desejo ao amor pelo que virá, pelo que está para ser construído como Livro e História. Por isso, tanto um quanto outro são entregas, que acolhidas por outras mãos, outros olhos, outras subjetividades também viverão além da Imagem.

Escrever um Livro é um desejo de muitos, ler e publicar já é um trabalho. Ter filhos é da espécie, cuidar, etimologicamente, passa a ser um contrato social com a Cultura, já que no Social está contida a capacidade de Amar para além de si.
A gêneses é a mesma.
Se um livro contém uma orelha, é porque neste aparato estará outra escuta. E dar canção moral, dar importância ao que virá direciona este fazer a um prólogo, a uma direção, a uma Ética de um Mundo melhor por ser trabalho que será Cultura, uma invenção com Arte.
Assim Homem e Livro são justaposições, duas partes, no mínimo, desde sua origem: Capa e Miolo. Interior e exterior. Oriente e Ocidente que depois de nascerem, nos elucidarão o que existia antes.

O nascer de um Livro é um trabalho, um parto, um ponto que indicará que houve história e houve antecedência. Essa titularidade, conforme sua diagramação expressará as idéias em prosa, as imagens em poesia e caminhando nesse rumo, retomamos o tempo possível, onde infância, puberdade, maturidade podem coexistir para além da marcas de quem escreve, chegaremos às memórias e à Vida.
Se a origem e o fim, capacitam o Processo Criador de uma Obra Literária, que desde seu prefácio, dedicatórias, epígrafes vão revelando uma autoridade e um desígnio que revestido de literalidade, permitem uma eterna re-leitura e um Projeto de Ressignificação.
A Vida não seria isso: uma idéia a ser escrita para chegar a um destino, já previsto, ou transformado?

Carmen Silvia Presotto, escritos para uma Concepção de Poesia Criativa Vidráguas, em JUNHO de 2006.

E um abraço a Ricardo L. Hegenbart, companheiro e idealizador de Vidráguas, www.VIDRAGUAS.com.br; e aos Queridos Professores: Nóia Kern, Elvo Clemente, Alice Campos Moreira, Miguel Oscar Menassa, Walter Galvani, Carlos Augusto Gianotti, Franscisco Marshall e Donaldo Schüler por cada Livro indicado, por cada escuta alcançada para seguirmos conVersando… e claro,gracias, também ao Eco de J.DrexLER!!!