Archive for novembro, 2008

O VESTIDO

O VESTIDO

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado

Queridos Amigos, com este poema desejamos um ótimo final de semana a todos, aproveitando para comunicar que por uma semana estaremos com o Sítio em reformas para conSertos.
Em busca de uma roupa nova, logo, logo, seguiremos compartilhando mais Palavras à Poesia, gracias e Vidráguas a todos…

O fim e o início

Wislawa_Szymborska
Depois de toda guerra
alguém precisa fazer a limpeza.
Já que uma ordem como essa
não vai se fazer sozinha.

Alguém precisa tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.

Alguém precisa atolar-se
na lama e nas cinzas,
nas molas dos sofás,
nos cacos de vidro,
nos trapos ensangüentados.

Alguém precisa arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém precisa envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.

Fotogênico isso não é,
e leva anos.
Todas as câmeras já saíram
para outra guerra.

Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.

Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.

De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.

Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.

Na grama, que cobriu
as causas e as conseqüências,
alguém precisa deitar
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.

Koniec i początek,Poema de Wislawa Szymborska, tradução de Tiago Halewicz em Memória Cultural Polonesa.

Velho Ônibus

velho_ônibus

Aquele ônibus circular abarrotado,
torto, inclinado para um lado,
se arrastando e gemendo
ao subir a longa ladeira,
assemelhado ao andar
de uma cansada e velha parteira.

Quem a distância observá-lo de frente
com aquela espessa franja no pára-brisa
e desgastada colcha de retalhos ao pé do volante
sobre a qual se fixa garbosa
uma imagem de Nossa Senhora Aparecida,
a conter aqui e acolá
mais algum outro profano penduricalho,
poderá tomar-lhe com certeza
por um oratório ambulante
cumprindo a sua via-crúcis
através do asfalto escaldante.

Poema de Américo Conte
Imagem da Internet

Vivas, às memórias: um convite!

Amigos, apareçam, juntos o brinde selará o Verdadeiro Encontro , amigos, Livros a mais Memórias…

Memória Cultural PolonesaMemória Cultural Polonesa

Vidráguas a mais um Livro nas ruas em parceria com StudioClio e R&O Editores.

psiu: O Livro- Memória Cultural Polonesa de Tiago Halewicz, encontra-se a venda em todas as lojas da Livraria Cultura, StudioClio e sempre com tele-entrega!!!

Com um poema, um feliz aniversário e Vidráguas ao JU…

o recreio da segunda infancia

Quando um corpo
se enlaça
em outro corpo,
nasce o enredo.

Quando um corpo
se entrega
a outro corpo,
tem o coração mais sustos
do que as mãos
brinquedos.

Quando um corpo
se despede
de outro corpo,
quem mais amou
cumpre o degredo.

Luiz Coronel, pg. 76 -O Recreio da Segunda Infância- Editora Mecenas