Archive for novembro 20th, 2008

O fim e o início

Wislawa_Szymborska
Depois de toda guerra
alguém precisa fazer a limpeza.
Já que uma ordem como essa
não vai se fazer sozinha.

Alguém precisa tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.

Alguém precisa atolar-se
na lama e nas cinzas,
nas molas dos sofás,
nos cacos de vidro,
nos trapos ensangüentados.

Alguém precisa arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém precisa envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.

Fotogênico isso não é,
e leva anos.
Todas as câmeras já saíram
para outra guerra.

Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.

Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.

De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.

Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.

Na grama, que cobriu
as causas e as conseqüências,
alguém precisa deitar
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.

Koniec i początek,Poema de Wislawa Szymborska, tradução de Tiago Halewicz em Memória Cultural Polonesa.

Velho Ônibus

velho_ônibus

Aquele ônibus circular abarrotado,
torto, inclinado para um lado,
se arrastando e gemendo
ao subir a longa ladeira,
assemelhado ao andar
de uma cansada e velha parteira.

Quem a distância observá-lo de frente
com aquela espessa franja no pára-brisa
e desgastada colcha de retalhos ao pé do volante
sobre a qual se fixa garbosa
uma imagem de Nossa Senhora Aparecida,
a conter aqui e acolá
mais algum outro profano penduricalho,
poderá tomar-lhe com certeza
por um oratório ambulante
cumprindo a sua via-crúcis
através do asfalto escaldante.

Poema de Américo Conte
Imagem da Internet