Archive for fevereiro, 2009

Amor à primeira vista

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Foto: Henri Cartier-Bresson, Boulevard Diderot, 1969

Ambos estão convencidos
De que foi um sentimento súbito que os uniu.
Linda é uma certeza assim,
mas a incerteza é ainda mais linda.

Acham que por não
terem se conhecido antes
nunca houve nada entre eles.
E o que diriam as ruas, escadas, corredores,
pelo quais há muito tempo poderiam cruzar?

Gostaria de perguntar-lhes
Se não lembram –
na porta giratória
um dia cara a cara?
um “com licença” em meio à multidão?
A voz “engano” no telefone?
- mas conheço sua resposta.
Não, não lembram.

Ficariam muito espantados em saber
que desde muito tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não totalmente preparado
a transformar-se para eles num destino,
aproximava-os e os afastava,
cortava-lhes o caminho
e abafando a gargalhada
saltava para o lado.

Houve sinais, signos,
mas algo ilegível.
É possível que três anos atrás
ou na terça-feira passada
uma certa folha tenha voado
de um ombro para outro?

Houve algo perdido e recolhido.
quem sabe se já não uma bola
nos jardins da infância?

Houve maçanetas e campainhas,
em que antes
o toque se pôs no toque.
As malas lado a lado no depósito da bagagem.
Talvez, numa certa noite, o mesmo sonho
apagado imediatamente depois de acordar.

Entretanto cada princípio
é apenas uma continuação
e o livro de acontecimentos
está sempre aberto no meio.

Poema de Wisława Szymborska, tradução de Tiago Halewicz, Memória Cultural Polonesa

Não vou ligar

Eu tenho alguém que me liga desde o berçário.

Seja em que data for: comunhão da filha, aniversário de todos amigos, dia da minha sogra lá está ele com seus toques: não vá esquecer que hoje é o dia d e antes, eu esperava esclarecimentos. Agora, já respondo corretamente conforme o seu chamado.
Tem dias que me sinto muito embolada, parece que toda a nossa cumplicidade não tivera outra saída: abatumamos a amizade.

Noutros, o alguém me lembra a mim mesmo, amiga e mãe, evidenciando a solidão de quem não tem irmãos e se torna uma irmã mais velha: zelosa, grudada e, terrivelmente, ciumenta.

Às vezes, chego a pensar que Alguém em vez de amigo é uma agenda que nasceu só para me perseguir.

Desde o hospital viemos amigos, ligados. Crescendo, viemos à capital para estudar; para casar não precisaríamos sair da terrinha, nossos namorados também eram amigos.
Imaginem que se compartilhamos até cirurgias, como não são os nossos natais?
Claro que num contexto assim ser comadre de alguém seria um exagero, mas somos dindos do próprio exagero.

Gente, 51 anos e tenho alguém que me liga desde o berçário, todo os dias como se comigo assinasse o cartão ponto de seus amanheceres. Como se todo dia fosse um grande presépio.

Hoje, basta eu entrar no MSN e plim, lá está ele com seu oiê. Finjo, tento escapar, me coloco como ocupada e aí ele me telefona: estás tão em off que não podes falar comigo?
Enchi o saco do pacto siamês, onde sufoca ter tanta simultaneidade.

No entanto, como viver sem alguéns? Então, deixem que liguem, que pensem que falem e nos conectamos…

Carmen Silvia Presotto

Pedra negra sobre Pedra branca

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Foto: Brassaï, Une Fille, Rue Quincampoix c, 1932

Pedra negra sobre Pedra branca
César Vallejo
Tradução: Ferreira Gullar

Morrerei em Paris com aguaceiro,
em um dia do qual já me recordo.
Morrerei em Paris – não abro mão –
numa quinta-feira, como esta, no outono.

Será na quinta, porque hoje, quinta, proso
estes versos, os úmeros os pus
no correio e, jamais como hoje, me encontrei,
depois de todo este caminho, só.

Morreu César Vallejo, o espancavam
todos sem que lhes tenha feito nada.
Batiam-lhe com pau, batiam duro

Também com soga; e disso são provas
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos…

Chamando os Pássaros

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Arte de Frida Kahlo

Confessar uma mentira não me torna verdadeiro.

Praticar uma loucura não me torna louco.

Bem sei que nasci num mundo que cansou de ultrapassar os limites, decidiu retroceder as barricadas e moralizar as sobras. Azar é o meu.

Varremos as cicatrizes para debaixo das tatuagens.

Somos bem mais conservadores do que nossos avôs. Desejamos uma fantasia romântica, mas percorremos a mesma única estrada. A que nos ensinaram a ir à escola. Há outras vias baldias e escuras que não são descortinadas – e orvalham quietas pelo excesso de vidro.

Lamento que ninguém mais tome carona no amor – é só dirigindo. Não suportamos que os outros não nos entendam. Um amor tem que ser público, não pode ser proibido, profano, incompreensível, enigmático, atávico, selvagem. Não pode acontecer na cozinha e no banheiro, no elevador e na garagem. Tem que ser visto. Defendemos o orgulho e a vergonha no lugar do mistério e do segredo. O que não pode ser contado passa a não existir. Não deixaremos um testamento – ele já foi feito. Não deixaremos a relíquia fechada de uma carta que talvez nos explique no fim da vida. Não haverá a nostalgia imponderável perante as janelas – todos estão em casa. Somos viúvos da própria vida.

Esvaziamos o nosso fim desde o nascimento. Não sobrevivemos à clandestinidade. Resolutos, claros, transparentes; o desvio é doença, o estranho é feio, o medo é hostilidade.

Tudo que é diferente é encaminhado como louco. Tudo que é imaginoso é dito como mentiroso. Busco meu filho na escola e escuto o chiado das cigarras na boca alheia entoando que é maluco alguém escrever Jesus na cabeça. Não me preocupo, aprendi na roça: cigarras nunca morrem, apagam-se.

Como avisar que dentro do guarda-chuva existem facas para cortar a luz? Como avisar para desdobrar a vareta e jogar fora a lona?

Como avisar que os telhados são caminhados?

Como avisar que encontro mais astúcia no desespero do que na tranqüilidade?

Cumprimento o crepúsculo com o menear do chapéu. Sou antigo para receber o sol, novo para desobedecer a noite. Há duas formas de loucura. A loucura triste, que se guarda para nunca gastar o corpo, e a loucura alegre, que esquece o corpo para protegê-lo.

Loucura alegre não vai se arrepender daquilo que tentou porque ela não tenta, ela é, quem tenta procura um resultado que não virá e será uma loucura triste. Loucura alegre é a matemática pictórica de Escher (subir as escadas de um prisma). Ou as cores berrando de Frida Kahlo (deitar numa banheira eletrocutada pela paisagem). É a voz rouca de Tom Waits (cantar como se não estivesse acordado). E o desfiladeiro dos dentes brancos da negra Billie Holiday (alfaiate da voz).

Loucura alegre não se preocupa com migalhas. As migalhas chamam os pássaros.

Loucura triste emburrece a esperança. Pede para cobrar, reprime para deprimir, manda para calar. É uma tristeza sem cócegas. Quem não ficou com a gente é mau caráter. Quem ficou é acomodado.

Loucura alegre tem suspiro. O suspiro é a escada rolante da lembrança. Quem não suspira não tira o gemido da risada.

Minha loucura é uma alegria para depois que chega antes. Aconselho a enlouquecer comigo e odiar minha conversa. Mas que seja um ódio criativo.

Fabrício Carpinejar

Dormindo nas Águas

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Foto: Asako Narahashi – Kawagushiko, 2003
Da série Half awake and half asleep in the water / Galerie Priska Pasquer.

“Depois chegara à conclusão de que ela não tinha um dia-a-dia mas sim uma vida-a-vida. E aquela vida que era sua nas madrugadas era sobrenatural com suas inúmeras luas banhando-a de um prateado líquido terrível.”

Clarice Lispector, Aprendendo a Viver Imagens, Rocco.