Mágica Moldura

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É… Ela pintou quase todo o quadro. A visão soltava-lhe a imaginação. O breu do céu, reavivava a menininha sardenta às lembrança tão cintilantes e visíveis quanto as estrelas que via naquela noite.
Enquanto pincelava, ouvia suas vozes preferidas: Então filhinha pintando o sete? Como melhoraste! Viu é só treinar minha netinha… Valéria queres um copinho com leite e doce de figo? Será que essa menina não deveria estar dormindo?
Escutas de como sua mãe tinha razão: Sono há todos dias, porém algumas imagens se não aproveitadas em oportunos momentos se esfumaçam…
Às vezes, a imaginação é tão fértil que foge para se camuflar e confundir as idéias. Noutras, é tão real, plausível, que uma foto pareceria um simples xérox do pensamento.
Valéria não poderia parar, se dormisse seria traída pelos sonhos. E o verde cheirava, tirando-lhe o sono para que suasse junto ao inconfundível perfume das plantas, folhagens e relva molhada que contornava toda a volta da casa, onde os gerânios avermelhados e suspensos, guardados pelos lindos potes coloridos e vivos badalavam sua vovó.
Nesses momentos, até a cadeira, gasta e surrada parecia ranger em seu ouvidos, tramando um lido encostos de retalhos, colcha aconchegante onde deitava sua saudade.
Quadros da infância!
Tangíveis pincéis e traços de memória que apenas acompanhava os passos das recordações. Acendendo cores sobre aquela tela, ela não apagaria jamais o peitoril da infância e por onde debruçava suas mãos, delinearia o quadro vivo da criança.
Hoje, Valéria, já não pincela apenas o teto e as paredes do quarto. Atravessa janelas e sacadas, porque os pincéis, pássaros em suas mãos, agora voam além da noite que cai.
Hoje, calmamente, adormece. Sabe serem muitas as imagens e imperdíveis os momentos que ainda transbordarão de suas retinas a eternizar raios que giremMsóis a mais esferas de vidas.
Carmen Silvia Presotto