Amor à primeira vista

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Foto: Henri Cartier-Bresson, Boulevard Diderot, 1969

Ambos estão convencidos
De que foi um sentimento súbito que os uniu.
Linda é uma certeza assim,
mas a incerteza é ainda mais linda.

Acham que por não
terem se conhecido antes
nunca houve nada entre eles.
E o que diriam as ruas, escadas, corredores,
pelo quais há muito tempo poderiam cruzar?

Gostaria de perguntar-lhes
Se não lembram –
na porta giratória
um dia cara a cara?
um “com licença” em meio à multidão?
A voz “engano” no telefone?
- mas conheço sua resposta.
Não, não lembram.

Ficariam muito espantados em saber
que desde muito tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não totalmente preparado
a transformar-se para eles num destino,
aproximava-os e os afastava,
cortava-lhes o caminho
e abafando a gargalhada
saltava para o lado.

Houve sinais, signos,
mas algo ilegível.
É possível que três anos atrás
ou na terça-feira passada
uma certa folha tenha voado
de um ombro para outro?

Houve algo perdido e recolhido.
quem sabe se já não uma bola
nos jardins da infância?

Houve maçanetas e campainhas,
em que antes
o toque se pôs no toque.
As malas lado a lado no depósito da bagagem.
Talvez, numa certa noite, o mesmo sonho
apagado imediatamente depois de acordar.

Entretanto cada princípio
é apenas uma continuação
e o livro de acontecimentos
está sempre aberto no meio.

Poema de Wisława Szymborska, tradução de Tiago Halewicz, Memória Cultural Polonesa

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