Archive for março, 2009

poesia em movimento

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Foto:Elizabeth Opalenik, Poetry in Motion.

XXII – VEM

Chimarrita, Chimarrita,
Chimarrita, meu amor,
por causa da Chimarrita
passo tormentos de dor.

Vem, aqui me tens caída
para te saberes forte
meu cair de te criar.
Vem, não nos pensamentos, mas na tua sede
teus pensamentos passam, mas não a sede de estar em mim
tua sede de abismar.
Vem, não me tragas tua fartura, mas a fome
não o teu ser pleno, mas o vácuo teu de me acolher
mas a voz se abrindo em chamas de me chamar.
Para chegar a mim atravessarás ondas e rios
e ferirás os pés em pregos, espinhos
para chegar a mim.
Para chegar a mim cortarás sombras milenares
e as distâncias dos campos sem limites
para chegar a mim.
Para chegar a mim afrontarás abismos
nevascas e chuvas
para chegar a mim.
Para chegar a mim te emaranharás em ausências
não de outros mas de mim ausentadas
para chegar a mim.

Donaldo Schüler, Chimarrita pag.71,72, Editora Movimento, 1985.

amanhã, dia de poesia e canção com Arnaldo Antunes e Luís Augusto Fischer

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crédito: Márcia Xavier

Arnaldo Antunes abre o Projeto Unimúsica 2009 – série cancionistas. O show acontece dia 02 de abril, às 19h, no Salão de Atos da UFRGS. Distribuição de senhas a partir de 30 de março, das 9h às 18h, na bilheteria do Salão de Atos. No dia 01, às 19h, na Sala II, Arnaldo Antunes e Luís Augusto Fischer conversam sobre poesia e canção.

Confiram a programação no site:
www.difusaocultural.ufrgs.br

Uma carta à Folha de São Paulo

Caros Amigos:

Após uma semana, revendo meus escritos e atos, desejo compartilhar algo que há muito vem me irritando. Pois saibam vocês, que sou assinante do Jornal Folha de São Paulo a perder de anos, o que me leva todos os finais de semana a fuxicar por novos escritos, leituras, resenhas , mas o que de uns tempos para cá também tem me colocado um tanto estranha.

Explico a vocês… telefone! …vejam só, justo quando lhes escrevo esta carta, toca o telefone , adivinhem: alguém da folha de são Paulo para ver se chegaram bem as entregas e quando ligo para lá me passam para um, para dois, para três e agora ligam, não dá para acreditar!!! E já escrevi, e já liguei, e já denunciei….bem, só podem ser máquinas a atender. Vá saber?

Bem, mas como lhes dizia, faz uns dois anos que a tal entrega está me perseguindo. Chega sábado, saio para minha caminhada matinal, imaginem que até o quitandeiro da esquina pergunta: já chegou a folha???

Claro, não tem como não ficar paranóica!

Antes, conto a vocês, desconfiava até de meus vizinhos. Depois, teve um tempo, que dei para verificar os cadernos do jornal para me certificar de que eles não tinham manchas de dedos, rastros de leituras antes dos meus.
Juro, caros amigos, cheguei acordar mais cedo para averiguar o bairro, sentir se por acaso alguém também não recebia o tal jornal. E até sono perdi, confesso que teve uma noite em que acordei escabelada, suada, sentindo-me abafada por muitas folhas, então vejam vocês a que ponto chega um assinante-leitor.
Chego a pensar que tudo possa ser reflexo de outros tempos, antigos tempos, quando meu outro jornal sumia no tapete da porta. Bem, mas esta assinatura eu resolvi, efetuando duas, uma para cima do tapete e outra para baixo e para isso, é claro, que fiz um pacto com o porteiro. Mas cá para nós, vocês agüentariam receber um jornal todo amassado, com os cadernos desfeitos e no horário exato que o motor de um carro soa na garagem?
Ah, sem contar da vez que nem as palavras cruzadas respeitaram. Ou do tempo que deram para sublinhar os tópicos mais importantes que liam, fazendo-me ler duplamente, o que me interessava e os outros…

Enfim, amigos, pelo menos o jornal chegava!

Agora, escrevo para por fim à novela, folha não dá para não ler, vocês acreditam? Eu sim, mas não ligarei mais.
E até para ser coerente com o que leio e escrevo, a partir desta confissão, não ficarei a esperar, irei até a esquina, como diz o Poeta, comprar o jornal…

Carmen Silvia Presotto

Os causos de Sant´Ana: as confissões do cronista da cidade no StudioClio

Paulo Sant´Ana fala sobre relacionamentos, suas cantorias, poesia e segredos de seu dia-a-dia como cronista na série Encontros com o Professor.

Imaginem Ostermann e Sant’Ana, dois craques da linguagem juntos, imperdível o conversar entre estes entre-vistas do olhar cotidiano no StudioClio, tabernáculo de Ruy, como diz Paulo Sant’Ana.

Vídeo zerohora.com

Ensaio sobre a lucidez

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Foto: 老龟 Yi Wu, “O”, Xilin.Yunyang.ChongQing.重庆.云阳

Ensaio sobre a lucidez
Domingos da Mota

Falo de velho: «ab ovo»,
velho sem posteridade
que nasceu um nado-morto
ou foi tão-só um aborto,

um velho assim, sem idade.
Falo de velho de novo
e que atinge a novidade
mal se quebra a casca d’ovo.

Falo de velho com dor,
dói acolá, dói aqui,
como se fosse um tenor
desde o dó até ao si.

E digo até desse velho,
um velho sereno e sábio,
biblioteca, conselho,
que pode ser alfarrábio.

(Todos os velhos de agora,
todos os velhos futuros
foram novos: e hora a hora
lá cairão de maduros).

Posso falar de cegueira
e também de estupidez
e chegar, ficar à beira
de perder a lucidez.