Dente de leite…

Um néctar goteja macio no tempo. Lá fora, escuta-se o barulhos de outros leites, borbulhando entre os cascos dos cavalos.

Chega o leiteiro!

Exatamente, no horário marcado, ele revela o subir de algumas cortinas, para que os olhos das casas acordem. E enquanto o precioso líquido vai sendo colocado à fervura, aproxima-se um cheirinho de massa recém tirada do forno.

Aos poucos, vão chegando os olhos vestidos.

Alguns já bem abertos, outros, ainda remexidos pela noite espreguiçam-se em busca de alguma novidade. Toca a sirene do Frigorífico, e em seguida o sino da Matriz. Mais janelas se abrem. Umas tentam alcançar a merenda ao filho atrasado, outras já estão com travesseiros expostos ao sol e de outras, simplesmente, se escuta: bom dia, como foi a noite, como está Ana, e João já chegou de viagem?

Entre tantos sussurros, no parapeito dos que ficaram, escuta-se a sineta do Colégio denunciando outras horas. Os olhos das casas vão ganhando corpo, as bocas dão lugar as pernas que se somam às mãos em movimentos.
Logo o barulho já não vem de fora, está na pia da cozinha, no tanque, na vassoura, misturando cheiros familiares aos ponteiros que vão fazendo a vida com seus trabalhos…

O sol se espreguiça na sala de almoço, quando se percebe o ruído que a manhã levara. Algumas janelas voltam a se abrir para a esquina em que desponta um bando uniformizado. Às vezes, dá para chamar o rol de longe… Noutras, depois de algum frio na barriga, a rua é anunciada pelo que falta. O retardatário deve estar refazendo um tema. Ou está escutando um pouco mais sobre a próxima tarefa, quando não metido em alguma rixa… Nesses casos, normalmente um desponta antes, avisa e aí, é a Rua que vai até o encontro marcado.
Mas, no dia de hoje o atraso era muito. E, justamente, quando a mãe saia para averiguar a demora, Luís atravessa o jardim correndo e gritando: por que nunca me disseram o nome da rua onde moramos?
Como, pergunta a mãe?
Sim, mãe! Falei de mim, falei de ti, falei do pai, das árvores, dos meus amigos, do meu cachorrinho, de tudo que me vinha aos olhos. E quando me pediram o nome deste lugar, falei do fundo do corredor e disse: Infância!

E?!

Faltava o nome, o título, a plaquinha e tive que arrumar outro nome e escutar a gozação por ser tão avoado e, mais, tolo por não saber que esta rua, simplesmente, é chamada de Armínio Da Silva.

Bem, filho… agora sabes: vestir lugares não é nada fácil, talvez nomear seja mais simples… agora vamos ver se a formiguinha já não trocou o dente de leite escondido nas pedras do jardim por algum dinheirinho?

Carmen Silvia Presotto

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