Archive for março 14th, 2009

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Marco Aqueiva

Um convite e uma carta ao dia da Poesia

Convite

Eu sou a amiga dos que sofrem.
Aproxima-te do meu coração, Amado.
Amado, conta-me teus segredos.
Onde nasceu a tristeza que nos teus olhos mora,
que causa tem a palidez que unge teus lábios
e esse tremor que tuas mãos comunicam às minhas?

Por que não vens, à hora confidencial do crepúsculo
sobre o banco de pedra esquecido entre árvores,
junto à fonte chorosa
e os afagos do vento perfumados de flores,
derramar no meu coração
as palavras reveladoras
que me fariam participar da tua amargura,
do teu desespero,
ou simplesmente do teu cansaço de viver?…

Quando desfalecesse a tua voz em sussurro
e o luar surgisse acariciando o céu em penumbra,
talvez, Amado, talvez sorrisses,
vendo aflorar nos meus olhos noturnos
a lua pequenina da lágrima.

Henriqueta Lisboa –Prisioneira da Noite (1935 – 1939)

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Cantos do “Purgatório”

Do “Purgatório”
A Edoardo Bizzarri
Mestre e Amigo em Dante

O purgatório é a casa do poeta. Sei que também é o inferno, com seus embates de paixão. E o paraíso também, com seus êxtases. Mas diz e repete meu coração que o Purgatório é a casa natural do Poeta. E aqui mora e demora o poeta nas pegadas do Irmão Maior, com seu coração sofrido porém não desamoroso. Aqui se restauram suas forças, daqui parte para novos degraus de purificação e mansuetude. Nestas plagas encontra velhos amores sempre verdes, mortos amigos sempre vivos, confidentes, repletos de complacência, mestres de amor. Aqui discorre do que adora com os artistas, conversa de ternura com os cândidos, comove-se com os que guardam no peito o antigo relógio, alegra-se com o ruflar das asas do anjo sobre o cabelos revoltos. No Purgatório se concebe em névoas, além de longe, a transcendência das cousas que passam mas não se perdem. O homem compreende e confia, embora desconheça a derradeira palavra. E a contensão e o sofrimento da espera se traduzem com nobreza, profunda e moderadamente. Aqui existe silêncio, um silêncio vindo de outrora, contido em si mesmo, igual à levedura que alimenta o pão e o faz crescer em ouro e flama, o silêncio que suspende o respiro na expectativa da música, o silêncio que preludia o fim dos trabalhos da alma, a anunciar o cântico.
O Purgatório é o reino do fazer, não mais o do agir, nem ainda o do contemplar. E o fazer condiciona a dignidade do homem, segundo seus postulados. Aqui se carregam pedras de construção, pedras semelhantes em cor, peso e tamanho, às que encontramos cada dia no caminho do tempo. Aqui se alteiam montanhas e serpenteiam rios que a imaginação transladou do nosso próprio torrão natal. Aqui se edifica o dossel da estrela que está por nascer, enquanto os olhos se prolongam de adeus às estrelas que em breve morrerão. Porque tudo é efêmero, nesta jornada, até mesmo a doce cor de oriental safira, os sentidos estão em alerta para as mais tênues matizes e os mais leves sussurros. Enquanto na amêndoa se contém a força da planta, é preciso que o orvalho das manhãs se recolha gota a gota. E enrubesçam as nuvens no altar do crepúsculo. Aqui se reza a mais bela oração, a que foi ministrada pelo filho de Deus. Aqui se consagra e se coroa o poeta dos poetas, em nome da liberdade de criar. Por isso aqui permaneço com minha lâmpada acesa, meus dedos tateantes ao longo das rochas, minha frágil voz seguidora da voz primeira, para melhor sentir em mim mesma, na língua materna, o segredo da beleza e da arte – essa água inefável sempre a fluir e a fugir do manancial.

Henriqueta Lisboa, Poesia Traduzida, pag.44 e 45, Editora UFMG.