Biblioteca Mário de Andrade, salva-se dos insetos…

(Gravura em nanquim-Américo Conte)
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Rio, 27 de dezembro de 1947
Manuel Bandeira, Uma Antologia Poética, L&PM POCKET
É! A Poesia decanta o tempo…
E quando a melhor medida não é a do homem, chega o Poema para declarar que os bichos chegam, feito cupins e brocas, criam um túnel contínuo para devorar o que o bicho-homem não preserva…
Falo da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no centro de São Paulo, que está fechada para reforma e restauro desde setembro de 2007 com reabertura, por sorte!, para o segundo semestre deste ano.
Atentos, porque os insetos são atraídos pelas edições antigas, devido ao uso de menos material químico e mais orgânico, vêm em busca do amido, encontrado na cola das capas e lombadas, e de celulose, presentes no papel.
O antídoto, caros leitores, é espanar com pincéis página por página, livro por livro, retirando o pó e os insetos, que, às vezes, escondidos nos buracos que formam, são extraídos com pinça. Depois, no restauro deste Patrimônio Histórico, os volumes são embalados um a um, encaixotados e levados a um galpão, onde são guardados em uma espécie de bolha com baixa concentração de oxigênio, para que os bichos sejam asfixiados…
Enfim, seguir o velho dito, não deixe para amanhã o que podes ler hoje, está valendo mais com relação ao Livro.
No entanto, algo ainda me intriga: já que a Biblioteca Mário de Andrade demandava melhorias desde os anos 50, não seria melhor achar o fim para mil outros insetos que nunca valorizaram o Sr. Livro, apesar de se empanturrarem com suas folhas?
Carmen Silvia Presotto





