Archive for março 24th, 2009

o sal da língua

persistente
Foto: Kiem Tang, ••• Persistent.

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade – Poeta Português

um poema, uma crônica de Lya Luft na semana de Porto Alegre

Canção na Plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelo anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com muito mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo a força – que vem do aprendizado.
Isso te posso dar: um mar antigo e confiável
cujas marés – mesmo se fogem – retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft, Secreta Mirada, Mandarim

o-eco-dagua
Foto:Vidráguas

A mentirosa liberdade
por Lya Luft

“Liberdade não vem de correr atrás de ‘deveres’
impostos de fora, mas de construir a nossa existência”

Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.

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oficina de crônicas com Ivette Brandalise

A crônica é uma espécie de tradução livre, e pessoal, do trivial variado.
Ivette Brandalise

Ao emitir o conceito acima, Ivette Brandalise está junto aos grandes nomes da Crônica, este gênero que, ao longo do tempo, alcançou, no Brasil, uma feição muito particular e admirada no mundo inteiro. João do Rio, Rubem Braga, Marina Colasanti, Nilson Souza, Liberato Vieira da Cunha, são autores, entre tantos outros, que ofereceram e oferecem, com seu talento, uma nova dignidade aos pequenos acontecimentos diários, transformando-os em Literatura.

A crônica, porém, é mais do que isso: é história, confissão, engajamento.

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