Archive for março 28th, 2009

uma crônica de Nilson Souza na semana de Porto Alegre

O rio de minha aldeia
por Nilson Souza
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Foto- Vidráguas

Sou um privilegiado desta cidade aniversariante. Não nasci em berço dourado, nem ganhei na Mega Sena ou fui contemplado com uma diretoria do Senado. Nada disso. Meu privilégio é outro e nem chega a ser exclusivo. Compartilho-o todos os dias com outras pessoas anônimas, com estudantes no rumo da escola, com bêbados e damas da noite surpreendidos pela claridade da manhã, com operários da construção que madrugam em suas bicicletas para chegar cedo na obra e também com os demais caminhantes das primeiras horas do dia. Caminho ao lado do rio da minha aldeia. Dizem os especialistas que não é rio, que é lago, mas isso pouco importa. Para mim, continua sendo rio, aprendi a chamá-lo assim no tempo em que morava longe dele e só o encontrava nos verões. As suas praias, acreditem, já foram o sonho de consumo dos porto-alegrenses, especialmente daqueles que nasceram e cresceram na zona norte da Capital.

Agora, vejo-o como um vizinho querido. Habituei-me a contemplá-lo nas manhãs de todas as estações. Conheço suas belezas e seus humores. Já o vi despertar alucinado, lançando-se furiosamente contra as pedras da margem e contra as taquareiras, querendo atravessar a estreita faixa de areia que o separa do asfalto. Já o observei acordando sonolento sob o manto das neblinas outonais. Mas invariavelmente encontro-o calmo, no ondular resignado do seu destino de saciar a sede das populações que se aquerenciaram às suas margens. Não raro amanhece imóvel, transformando-se num gigantesco espelho desta cidade vaidosa de seu pôr-do-sol. Se ele não existisse, chego a pensar, o sol passaria reto por Porto Alegre, sem jamais voltar para o bis.

Mas o rio também inspira outros espetáculos. Esta semana mesmo, presenciei uma cena curiosa quando caminhava no calçadão de Ipanema. Na beira da água, um jovem fotografava a namorada. Ela, coberta por um vestido leve, saltitava alegremente na areia, fingindo voar como as garças que frequentam aquelas margens. O menino esforçava-se para encontrar um ângulo que contemplasse ao mesmo tempo a energia adolescente de sua amada e a serenidade contagiante do rio. Aquela cena de magia e vida me fez lembrar um verso de Fernando Pessoa, que ouvi certa vez na voz do ator Werner Schünemann: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.

O rio da minha aldeia, da minha gente, da minha vida chama-se Guaíba.

Fonte: 28 de março de 2009 , N° 15921, Jornal Zero Hora