Paulo Sant´Ana fala sobre relacionamentos, suas cantorias, poesia e segredos de seu dia-a-dia como cronista na série Encontros com o Professor.
Imaginem Ostermann e Sant’Ana, dois craques da linguagem juntos, imperdível o conversar entre estes entre-vistas do olhar cotidiano no StudioClio, tabernáculo de Ruy, como diz Paulo Sant’Ana.
Não é mera coincidência!
O mais novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado, cuja inspiração inicial veio da canção:
O Velho Francisco
Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou
Fui eu mesmo alforriado
Pela mão do Imperador
Tive terra, arado
Cavalo e brida
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco
Vem todo domingo
Tem cheiro de flor
Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou
Li jornal, bula e prefácio
Que aprendi sem professor
Freqüentei palácio
Sem fazer feio
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco
Vem todo domingo
Tem cheiro de flor
Eu gerei dezoito filhas
Me tornei navegador
Vice-rei das ilhas
Da Caraíba
Vida veio e me levou
Fechei negócio da China
Desbravei o interior
Possuí mina
De prata, jazida
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né
Acho que o moço até
Nem me lavou
Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou
22 anos depois ressurge, da voz de Monica Salmaso, o ecoar para mais páginas impressas que ontem ganharam as livrarias
Segundo o autor, ao reescutá-la, pensou em escrever a história de um velho. Só que ao colocar mãos à obra, mudou o enfoque. Trocou o ex-escravo por um nobre de velha estirpe. E é por meio dele, Eulálio Montenegro d’Assumpção, o tal morimbundo, feito o Velho Francisco, nascido em 16 de junho de 1907, que o escritor narra a decadência de determinada elite brasileira.
A trama percorre o mapa do Rio tradicional, revisitado em entrevista pela Folha de São Paulo e codificado por resenhas de Roberto Schwarz e Eduardo Gianetti.
Leite Derramado é o quarto Romance de Chico Buarque a acompanhar Estorvo de 1991; Benjamim,1995 e Budapest,2003 e ainda a novela Fazenda Modelo.
Mário Quintana, o poeta do mapa da cidade de Porto Alegre
por Tânia Du Bois
(Foto-Vidráguas)
“Olho mapa da cidade / como quem examinasse / a anatomia do corpo / …
Sinto uma dor infinita / das ruas de Porto Alegre / onde jamais passarei…”
Quando se pensa em Porto Alegre, necessariamente se pensa em Mario Quintana. Muitas vezes confundido com a paisagem das ruas do centro da cidade, por seu amor pela cidade, em sentimento recíproco.
Suas caminhadas pela Praça da Alfândega; pelo Correio do Povo, onde publicou o Caderno H, pelo Parcão, teve por objetivo conversar com as pessoas, estabelecendo uma ponte entre o sonhado e o vivido…
Realidade e imaginação, Porto Alegre e poesia se associaram para compor o quadro e permitir a adoção da cidade pelo Poeta. Ele conseguiu, através da sua obra, estabelecer comunicação afetiva com Porto Alegre e encontrou a maneira de ajudar a ver e a refletir o encanto pela cidade, que correspondeu a sua necessidade, num encontro marcado com o Poeta e com o mundo.
Quintana soube desfrutar Porto Alegre, vindo a ser integrado em sua paisagem, tal como a imagem da cidade foi transfigurada nas metáforas de seus poemas.
(Foto-Vidráguas)
“Porto Alegre, antes era uma grande cidade pequena. /
Agora, é uma pequena cidade grande.”
O Poeta soube ver Porto Alegre como são vistas as fadas, teve olhos para revelar a face secreta da cidade e das pessoas. Além dos poemas, escreveu o livro de crônicas, Porto Alegre Ontem e Hoje, em 1971.
Foi um poeta de andanças pelas ruas de sua amada Porto Alegre; segundo Aluízio Ribeiro, “A cidade que adotou como sua e cantou como ninguém”.
Pedro Maciel escreveu que “… o poeta ama a cidade e a cidade ama o poeta… Ninguém mais compreendeu tão bem a alma feminina e acolhedora de Porto Alegre, quanto Quintana, e soube com ela manter um caso de amor tão profundo e explícito…”
Ségio Napp disse que “A Casa de Cultura Mário Quintana é o barco que singra a cidade-porto em busca da voz do poeta – símbolo que, ancorado na cidade faz dela seu itinerário de canções.”
Já Waldir Silveira concluí que “Porto Alegre aprendeu a reconhecer-se nos versos de Quintana.”
Mário Quintana na escolha das rimas criou para os porto-alegrenses um clima de acalento para com a cidade, com que expressou a vida, o esperar, o sonhar e se transcreveu em sua representação.
“Céus de Porto Alegre, como farei para levar-vos para o céu?”