ode sobre uma urna grega

Foto: Elisabeth Sunday, The Hidden, AFRICA VI: The Tuareg.
ODE SOBRE UMA URNA GREGA
Tradução: Augusto de Campos
I
Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?
II
A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.
III
Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.
IV
Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.
V
Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
— É tudo o que há para saber, e nada mais.
Caros amigos,
Here lies One Whose Name was writ in Water. (“Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água”). Esta frase pode ser lida no túmulo do poeta inglês John Keats (1795-1821), em Roma. Em seu leito de morte, ele decidiu que somente essas palavras deveriam ser gravadas em sua lápide, na qual nem consta seu nome.
John Keats nasceu em Finsbury Pavement, perto de Londres. Estudou para tornar-se um cirurgião, mas em 1814 abandonou o ramo médico para dedicar-se à vida literária. Assim, logo se aproximou de artistas conhecidos da época como os poetas Percy Shelley e James Leigh Hunt. Com a ajuda deste último, os primeiros versos de Keats foram publicados em 1816.
Um ano depois saiu o volume Poems, que reunia cerca de trinta textos, entre poemas variados e sonetos. Em 1820 o poeta publicou o volume Lamia, Isabella &c., que incluía suas celebradas “Ode a um rouxinol” e “Ode sobre uma urna grega”. No mesmo ano, Keats, doente dos pulmões, foi aconselhado pelos médicos a evitar o inverno rigoroso da Inglaterra e mudou-se para a Itália. Infelizmente, a enfermidade já estava avançada e o poeta faleceu, com pouco mais de 25 anos, em fevereiro de 1821.
Desaparecido com tão pouca idade, o genial Keats legou-nos alguns poemas que o colocam, ao lado de William Wordsworth (1770-1850), como O poeta romântico inglês do século XIX. Entre as peças de altíssima fatura escritas por Keats estão suas duas magníficas odes, que vêm conquistando a admiração de sucessivas gerações de leitores há quase 200 anos.
Transcrevo ao lado a “Ode sobre uma urna grega”, no original e na tradução de Augusto de Campos, que também verteu para o português a “Ode a um rouxinol”. Arquétipo do poeta romântico, Keats vê nesse vaso grego a materialização da própria arte, um símbolo, ao mesmo tempo, de beleza e verdade. Estas, aliás, são para ele a mesma coisa, como está explícito no final do poema.
A urna grega, atravessando os séculos, dá a Keats a sensação de perenidade da grande arte. “Quando a idade apagar toda a atual grandeza, / Tu ficarás, em meio às dores dos demais”. Nesse aspecto, o poeta aplica ao vaso milenar a mesma idéia já expressa antes no poema Endymion, escrito em 1818:
A thing of beauty is a joy forever — uma coisa bela é uma alegria para sempre.
A “Ode sobre uma urna grega” é uma coisa bela.






