Archive for abril 24th, 2009

dois amores ao mesmo tempo

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DOIS AMORES AO MESMO TEMPO
Fabrício Carpinejar

Uma biblioteca desarrumada não significa que é menor. Estantes com filas duplas não sinalizam desordem. Um livro que não se encontra não está perdido. Não achar alguma coisa é mexer em obras esquecidas e ler o que não se esperava. Não sou contra a catalogação. Nada disso. É que livros lidos são naturalmente livros fora de ordem. Escapam do crivo, deitam em dormitório alheio, se misturam com ansiedade. Duvido de uma biblioteca ordenada em excesso, impecável, limpa. Parece que a única leitora é a traça. A vida não deixa nada em seu lugar. Como ler sem contrariar o rumor alfabético? Como viver sem contradição? O mesmo posso pensar dos amores. Desejamos ao longo dos dias ter um casamento regulado, com todos os volumes cadastrados e que sirva mais como um móvel para decoração do que uma escada de leitura. Amor, como uma biblioteca, não é posse, mas despertence. Quanto mais leio mais perco as certezas do começo. Quanto mais amo mais apresso o final. Um livro não dirá onde estamos, uma paixão não consola, ambos apontarão para onde podemos ir dentro do corpo. É possível viver dois amores ao mesmo tempo? Sim, é possível viver até três amores ao mesmo tempo, porém o esgotamento nervoso chega junto. Desde que um amor não seja a migalha do outro. Desde que o amor não seja a falta de solidão, e sim a solidão assumida. Desde que o amor não seja a segurança do egoísmo e sim a insegurança do diálogo. Desde que um amor não seja o complemento do outro. Pois amores não se completam, se bastam. Não adianta somar duas carências para gerar uma terceira. Dois amores são possíveis no início, para se desentenderem logo em seguida. O amor que é forte, luminoso, não permite concorrência. Amor é naufrágio, nem todos encontram madeira boiando para voltar a si. Dois amores são possíveis ao mesmo tempo porque um deles será o proibido. Porém, o proibido pode ser transar com a esposa, não a amante, e quem dançará sozinha depois é a amante. Difícil de compreender? Permanecer no casamento ou na estabilidade, desde que se amem, é hoje a mais alta transgressão. Aventurar-se fora de seus domínios cheira a regra. Não existe roteiro pronto. Assim como o marido pode segurar a vela de seu enterro e as duas arranjarem coisa melhor pela frente. O amor não está em uma instituição, mas na capacidade de suplantá-la.

Amor não se mede, se confunde. É impraticável comparar relacionamentos como ofertas de lojas. Um amor que não pode ser comparado é difícil de esquecer (ainda que a separação aconteça). Aquele que já permite comparação demonstra ser pouco consistente (ainda que os dois fiquem juntos). A gente ama para quê? Para não avaliar o amor. Não conseguir acompanhá-lo é quando vai bem. Quando se começa a ter consciência do certo ou do errado é aviso prévio. Sintomático que os casais peçam conselhos aos amigos para fazer em seguida tudo diferente. Amor muda as regras de propósito, muda o telefone, muda o endereço. Quem não está jogando não entenderá. É feito somente para jogar, não ser assistido. O mistério é não entendê-lo a ponto de preveni-lo. Prevenir o amor é matar a capacidade de aprender com suas conseqüências.

Crônica: Dois amores ao mesmo tempo, Fabrício Carpinejar, do livro O amor Esquece de Começar, Bertrand.

Atentos!
Mais fotos por enquanto só no blog do Lerina. Mas a partir do dia primeiro de maio poderá conferir o photopoema na integra no site Vidráguas (www.Vidraguas.com.br). Lembrado também que em breve Vidráguas estará de cara nova.

Produção Editorial e Cultural Vidráguas
Coordenação: Carmen Silvia Presotto
Fotografia: Ricardo Hegenbart
Arte e figurino: Bruno Padjem
Modelo: Fernanda Evangelista – Way Models Porto Alegre
Maquiagem:Val Oliveira
Painelista: Américo Conte
Web-designer: Eduardo Côrrea
Apoio: Retro Brechó e Câmara do Livro, Porto Alegre
Sapatos: Júlia Presotto

NÓS, AS BIBLIOTECAS E A LEITURA

por Affonso Romano de Sant’Ana
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Foto Ricardo Hegenbart- Feira do Livro Londres,2009

Dizia eu no seminário sobre leitura e bibliotecas organizado pela Superitendência das Bibliotecas Públicas em Minas, que um país é o que são as suas bibliotecas. E relembrando vivências de quase 20 anos atrás( ” le temps s’en va Madame, le temps, s’en va” -dizia Ronsard), a biblioteca de um país é uma espécie de metáfora epistemológica.

Mitterrand, ergueu aqueles imensos edifícios da “Très Grande Bibliothèque”, porque a França sempre colocou a cultura como um de seus pilares.
Quando fui a um congresso em Nova Delhi(India) descobri que a “National Library” americana mantinha 110 funcionários lá coletando tudo sobre o que era escrito em dezenas de dialetos.E um dia na BN a embaixada americana nos ofereceu vários caixotes com milhares de panfletos e folhetos que recolheram aqui, fotografam em Washington e estavam nos dando de presente.
Os imperialistas não brincam em serviço.

Na Biblioteca Nacional do Peru encontram, nos anos 90 um célula do antigo ” Sendero Luminoso”.
A Rússia, no tempo do comunismo, tinha cerca de 600 mil bibliotecas públicas. Pena que as leituras eram dirigidas e outras censuradas.
No Chile, o ex-presidente Lagos começou a Biblioteca Pública de Santiago e a Bachelet já a visitou 8 vezes. Essa biblioteca modelo chefiada por Gonzalo Oyarzúnm, que fez uma bela palestra em BH, recebe 15 mil visitantes no domingo.

E na Biblioteca Nacional brasileira, onde um dia tive que mandar de recolher à Seção de Obras raras uma bala perdida que caiu a dois metros de mim, num outro dia tive que apartar uma briga entre duas gangues de morro, que tinham seus representantes entre os meninos da “Febem” que ali trabalhavam como estagiários. UM PAIS É O QUE SÃO AS SUAS BIBLIOTECAS.

Por isto, aguardo com expectativa e certa satisfação o dia 25 de julho, Dia do Escritor, quando o Presidente da República anunciará, que conseguimos colocar uma biblioteca em cada município e o governo, finalmente, tem um plano nacional de implementação não só do livro, mas da leitura.

Leia mais no blogue do autor:http://www.affonsoromano.com.br/