Será que Mrs. Dalloway passou por aqui?

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“… Quando o jardineiro planta seus bulbos ou semeia sua grama, eles florescem de novo e alastram pelo solo sua relva verde e macia…”
Virginia Woolf

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Faz dois meses que acompanho as folhas de Londres se cobrirem com a nova estação. Ao chegar, tudo correspondia ao imaginado. Até abrir a janela do quarto e ser saudado pelo muro vivo, entremeado por uma trepadeira de rosas… O nome é dúbio, mas como veem essas rosas existem e violam qualquer olhar.

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Bem comigo aconteceu assim, fechei a janela e o jardim me perseguiu, pedindo um reconhecimento mais próximo.



Então, na semana passada, ainda com café da manhã na garganta, atravessei a porta da cozinha, rumo ao rastro da sombra Verde-Londres para chegar a alguns botões. Mais interessante que logo arrumei uns parceiros. Senti umas asas descerem do muro, subirem pela porta da cozinha, passar pela janela do meu quarto para me apresentarem a sua casa, era um ninho ainda em construção, logo acima dos quartos.

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É a primavera, pensei!!!



Voltando às rosas, notei por duas, três que estavam abertas como pareciam diferentes. Suas pétalas se evidenciam fortes, logo talvez esteja toda a espécie a celebrar híbridos encontros de aromas, raízes mescladas de cores. Ser assim despertado demonstra a gentileza do momento, feito um presente dos céus, do orvalho, essa moldura me caiu sob encomenda.

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Sim, rosas envasadas são lindas, no entanto soltas à inglesa na terra de Chaucer, Shakespeare, Keats, além de ser um patriotismo, como nos diz Virginia Woolf, trazem em suas pétalas renascimentos, transformações da rosa mãe à rosa Poesia: mutações.

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Por isso, que sigam destes outros os meus rastros!
A vida segue e este jardim, tornou-se meu cenário cotidiano, por onde meço o tempo, leio o ir e vir, converso, teço mais espaço…



O casal de passarinho que fez um ninho acima da janela do quarto, talvez tenha percebido isso bem antes… Eis a natureza comungando com a Vida.

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Por isso, seguir estes instantes me move, assim me falam os botões a desabrochar, assim me cantam os pássaros vizinhos, pois nos simples encontros está a beleza de qualquer humano encontro…

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Porém, tem dias que é mais do que uma estação, é pura celebração.
Num destes dias, acordei com o alarido dos meus amigos pássaros. Já estava a ponto de espantá-los, era cedo, mas antes mesmo de tomar café, abro a janela para ver o motivo de tanta festa, voos rasantes e tanto bater de asas, levo um susto:

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O que era verde enroseceu, o que estava fechado abriu-se.
- Mrs. Dalloway passou por aqui, gritei?!



O café que espere. Hoje registrarei o recanto que me acompanha, que agora me assombra a ser capturado. Começo a retratar o momento, conto 100 rosas, depois é impossível, os pássaros sentem a invasão das rosas, e tão assombrados quanto eu, rebatem suas asas até a janela do quarto e se aquietam, parecem também querer contemplar este momento único que penso não ser comum.
Pergunto a alguém que passa pelo portão, escuto:Yes!!!

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No entanto, com esse perfume mansinho, convidativo a chegar mais, naturalmente, acompanhados por pássaros em festa, não deve ser…
O jardim se multiplicou, nunca tinha visto algo assim: uma, duas, três… mais de cem rosas.

Hey, é primavera em Londres e, Mrs. Dalloway passeia por meu jardim.


Texto: Carmen Silvia Presotto
Fotos: Ricardo Hegenbart

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12 respostas para “Será que Mrs. Dalloway passou por aqui?”

  1. andreia Says:

    lindo, lindo, lindo demais!! beijos e saudades!
    deia

  2. carmen silvia presotto Says:

    Andréia querida, que bom teu abraço e que bom todo este perfume de pétalas!!!

    Carinho,
    Carmen Silvia Presotto

  3. Bruno Padjem Says:

    Muito, muito, muito lindo mesmo, imagens e texto!

  4. Mauro Says:

    Querida Carmen!

    Fiquei sensibilizado com o esplendor das rosas Londrinas e o belo texto por você construído, bem a altura desse milagre da natureza. Só ainda não sei quem é este Mrs. Dalloway.

    Embrace,

    Mauro

  5. carmen Says:

    Mauro, que bom ter tua leitura e comentário!!!

    Mrs. Dalloway é é um romance de Virginia Woolf publicado em 1925, que já rendeu filmes e muitos escritos…

    Um abraço carinhoso.

    Carmen Silvia Presotto

  6. Gerci Says:

    Olá Carmen, querida poeta, é sempre uma emoção ler-te e neste texto e nestas fotos tão lindas vejo a beleza de duas pessoas que amo. Beijos para o querido Ricardo.
    abraço-te com carinho
    Gerci

  7. carmen silvia presotto Says:

    Gerci, e que bom este abraço!!!

    Obrigada pela tua leitura, carinho e aguadamos teus poemas!

    Carmen Silvia Presotto

  8. Natália Says:

    Oi Carmen,
    Bem dizia Cartola: “as rosas não falam/elas simplesmente exalam/ a beleza/que vem de você…
    Eu amo flores. E a rosa é a rainha de todas. Depois, pra mim, vem o jasmim e a camélia. Essa última creio que por causa do livro. Li a Dama das Camélias quando tinha 11 anos e me apaixonei por essa flor. Mais tarde, soube que Chanel também apreciava. Ao ponto dessa flor ser um ícone na moda de Mademoiselle.
    Eu gostaria tanto de conhecer Londres. Só estive por lá umas duas horas, em 2001, em uma escala área. Agora em 2010, pretendo realizar esse somho meu!
    beijão
    Natália

  9. renata leite Says:

    lindo!!

  10. carmen silvia presotto Says:

    Renata, que bom que estejas aqui, sigamos cruzando versos, fui ao teu espaçohttp://reladyevil.blogspot.com/… muito bom, e seguirei te visitando.

    Beijos e boa semana.

    Carmen.

  11. VANESSA Says:

    Carmen,

    Maravilhoso trabalho!!! Parabéns pela composição/idéia/ arte/ edição…Enfim, se possível quero participar do próximo!!!! bju

    “Não adianta – não adianta nada”, disse eu.
    “Depois que ela aprendeu a ler somente numa coisa você poderá ensiná-la a acreditar – nela mesma.” V. WOOLF – contos completos

  12. carmen silvia presotto Says:

    Virgínia é genial, e fico feliz com tua apreciação… sei de teu amor pela palavras e fotografias, Vanessa!!

    Um grande beijo.

    Carmen.

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