Ferreira Gullar, um corpoema…

Ferreira Gullar - col11

Amanhã mais “Arte sem explicação” nas ruas.
É! Dez quadros de Ferreira Gullar, vestidos em Serigrafias editadas pela Papel Assinado, ganham a rua e, certamente, será arte, será arte…
O lançamento será na Realidade Galeria e Arte, em Ipanema.

Enquanto isso,leiamos o Poeta:

… Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70 m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um ( por que
não seis?)
joelhos e tonozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se


meu corpo de 1,70 m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber para quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar

e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuo corpo-fato
atravessado de cheiros de galinheiro e ratos
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
corpo meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi

Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria
sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas e roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino.

Ferreira Gullar, fragmentos de Poema Sujo (1975), pag.306 a 310,Toda Poesia, Editora Civilização Brasileira.

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