hoje, um Poema de Adélia Prado

O DESTINO DO ALVISSAREIRO

O poeta sofre o ridículo
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor de multidões’!
Assim o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim amém,
cruz sobre a terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.

Adélia Prado, A Faca no peito, pag.11,Editora Record.

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