e… em Verona, Carmen não morre

CARMEN DE BIZET NA ARENA DE VERONA
por Berenice Sica Lamas (*)
partitura

No anfiteatro romano Arena da cidade de Verona assistimos ao drama lírico Carmen, inspirada em um conto do escritor francês Prospero Mérimée de 1845 e transformada em opera lírica e musicada pelo compositor também francês Georges Bizet em 1875. Cantada em língua francesa, original em 3 atos, é uma das operas encenadas no 87° festival lírico anual da cidade, célebre em toda a Europa.


Arena Verona 016

O Arena, localizado no centro histórico de Verona, é o maior teatro lírico a céu aberto do mundo. Majestoso, de grandes proporções, estrutura toda de pedra clara, de forma circular elíptica, clássica a todos os anfiteatros, é o terceiro em tamanho da Itália. Sua acústica parece perfeita, as vozes saem límpidas e cristalinas chegando a toda a imensa platéia sem problema algum. Sua antiguidade é estimada em metade do século I (período Augusto/Tibério aproximadamente), não havendo fontes precisas quanto a data de sua construção e inauguração.

Verona é uma cidade muito turística da região do Veneto, norte da Itália, conhecida pelo museu e balcão das personagens Romeu e Julieta de Shakespeare, uma rica vida cultural, mercados e o próprio Arena. A palavra arena origina-se no latim, significando a areia que havia na parte interna de todos os anfiteatros romanos.

Desta feita o diretor é Franco Zeffirelli e o maestro/diretor de orquestra é Plácido Domingo – comemorando 40 anos de sua primeira apresentação no Arena -, aplaudidíssimo pelo publico presente, que já foi Don José em encenações pretéritas em outros países e neste mesmo festival de 2009 repetirá, protagonizando os atos finais de 3 óperas em uma só noite, chamada “Noite de Gala com Plácido Domingo”, uma delas Carmen.

Arena Verona 022


A orquestra é do próprio anfiteatro, bem como o corpo de baile e o coro. Convidados especiais da noite são os primeiros bailarinos espanhóis Lucia Real e Jose Porcel, bem como o grupo de ballet espanhol El Camborio de Lucia Real.

leia toda a cartografia poética


Pleno julho do verão europeu, noite fresca. Tempo instável, desaba um temporal duas horas antes do horário previsto ao inicio do evento. Corações balançam. Ninguém deseja um cancelamento, uma viagem a Verona desperdiçada. Porém, pensando bem, um passeio a Verona nunca seria um desperdício. Na área externa ao Arena, os cenários das outras óperas do festival se oferecem a fotos: rosas gigantes do Barbeiro de Sevilha, figuras do Egito de Aída, dragões e figuras chinesas de Turandot.
Eu e minha nora aproveitamos para um rápido passeio pela praça e rua dos cafés e restaurantes, e abrigamo-nos em uma das entradas do anfiteatro para desembrulhar nosso farnel e jantarmos antes da abertura dos portões. Compramos impermeáveis de plástico
transparente, a chuva continuava torrencial.

Abrem-se os portões uma hora e meia antes do horário de inicio. Nos patamares das escadas que acessam ao anfiteatro, encontram-se grandes latões repletos de velinhas pequenas, distribuídas gratuitamente. Qual será a lenda destas velinhas? Um folheto distribuído junto às mesmas, esclarece que o anfiteatro Arena de Verona foi inaugurado na homenagem ao centenário de nascimento de Giuseppe Verdi, em 10 de agosto de 1913, com a encenação da ópera Aída. Nesta época não existia ainda energia elétrica no Arena, e o público levou consigo milhares de velinhas para iluminar o palco e o cenário, bem como para poder ler os programas. Assim nasceu a linda tradição das velinhas acesas na platéia.

Abandonada com o transcorrer dos anos, foi resgatada a partir dos anos 80, através do atual presidente Giuseppe Vicenzi, que então passou a oferecer aos espectadores uma velinha, não deixando morrer esta memória tão sensível e ajudando a recriar a atmosfera mágica todas as noites. Quando acendemos a velinha ao iniciar o espetáculo, estamos assinalando nossa presença em um evento único no mundo.

Passam os rapazes e moças das “balas, baleiro !!” vendendo tudo que se possa imaginar: livretos, CDS, chocolates, queijos, sorvetes, refrigerantes, água mineral, salgadinhos, almofadinhas, capas de chuva, sombrinhas e guarda-chuvas, souvenirs de Verona, bonés, incluindo vinho tinto e branco. Afinal, estamos na Itália. As pessoas fazem verdadeiros pic-nics nas horas de espera. E o anfiteatro lota aos bocadinhos. Uma massa humana considerável, constituindo-se numa miscelânea de nacionalidades e tipos físicos diversos: americanos, italianos e alemães, com a predominância destes dois últimos. Babel de línguas e sons. Havia pessoas que voltariam a Munique ainda naquela noite, como nós para Bologna.

Somente estar sentada em uma arquitetura de 20 séculos atrás já deslumbra. Na parte central – área VIP – as cadeiras são confortáveis, existem tapetes de veludo vermelho e dois bares, um de cada lado do palco, ao dispor do público que paga mais caro, e que usa também roupas muito elegantes. Os funcionários do Arena trabalham diligentes como formiguinhas trocando almofadas molhadas, varrendo a água empoçada da chuva. No staff desta área, as hostess, de tailler preto e saltos altíssimos – à italiana – muito elegantes também. A propósito, os ingressos custam de 18 (arquibancada lateral) a 218 euros (poltroníssima gold), havendo venda de pacotes para 3 ou mais óperas a preços com desconto.

Nuvens se esfiapam, o céu desanuvia. Entra alguém com um gongo de bronze e soam as badaladas que anunciam o início do espetáculo: o Arena escurece, o palco se ilumina e o público silencia. Puro arrepio comovido. Começo da magia… A história se passa nos arredores de Sevilha, Espanha, aproximadamente em 1820. Cavalos, cavaleiros, burricos, bailarinos e bailarinas, balés flamencos, danças ciganas, cantores e cantoras, crianças em cena, carroças, ou melhor: Andaluzia no palco. Carmen é uma fascinante obra toda espanhola na ambientação e personagens. Lembro da estatua de Carmen em Sevilha, quando participava do Intercampus/97, os sevilhanos adoram esta obra e se orgulham deste mito da ficção universal e também do filme de ballet flamenco “Carmen” de Carlos Saura com Antonio Gades e Laura Del Sol nos papéis principais.

Figurinos impecáveis, vestes típicas e folclóricas espanholas. O anfiteatro todo às escuras, a iluminação colorida do palco com todas aquelas figuras e vozes em uníssono. A música intensa, arrasta, sensibiliza, marca cada ato, cada canto. Bizet caprichou se inspirando nas linhas e palavras de Mérimée. Os solos e os coros, tudo impressiona: em cena tenores, barítonos, sopranos, meio-sopranos, contraltos. Seres humanos com seu potencial vocal ao máximo. Franco Zeffirelli constrói sua Carmen em quatro atos, com belíssimos cenários gigantescos e substituídos com rapidez e eficiência:
1° ato – Barracas de feira de uma cidadezinha – verduras, frutas, queijos, vinhos. À direita, a entrada da fábrica de tabaco. Micaela interage com D. José, e Carmen inicia sua sedução, conseguindo a fuga em troca de promessas.


Arena Verona 023

O intervalo se alonga devido a uma fina chuva, o 2° ato tarda a reiniciar. O encanto extra de uma lua cheia amarela que surge devagar e alça-se lenta, por cima dos muros e arcos do anfiteatro, querendo se introduzir no cenário sevilhano. E consegue, porque não há como olhar para o palco sem vê-la brilhando no céu.


2° ato – Pôsters gigantes com propagandas antigas, esboços criados por Franco Zeffirelli. Neste ato Carmen canta a famosa ária Habanera – o amor é um pássaro rebelde – ela se apresenta como uma mulher muito livre, amante do amor. Chega o toureiro Escamillo e se interessa por Carmen. Na metade deste ato, interrupção: chuva de novo. Os zelosos músicos protegem os instrumentos musicais delicados com capas e abrigos, e saem ligeirinho para não danificá-los. – chuva fina mas suficiente para se abrir uma maré de sombrinhas e guarda-chuvas – o Arena que já estava bonito com o gritante colorido das capas de chuva de plástico vendidas, ficou com uma aparência muito peculiar: somente num teatro daquele porte ao ar livre isto poderia acontecer.
E a história vai se desenvolvendo, a trama se desenrola, a posição incomoda nas arquibancadas, as costas doem, almofadinhas carregadas desde a viagem de trem não dão conta do achatamento do traseiro, … mas que importa??


3° ato – Novamente cenários com figuras gigantescas: montanhas, paisagem lunar, tristeza, atmosfera densa, cinzenta. O ato mais potente em minha opinião, os tenores roubam a cena. O que se desenrola e desfila ante nossos olhos é de perder o fôlego às vezes. Plácido rege competente e os acordes elevam-se no ar de forma suave e estrondosa ao mesmo tempo, não sei como. O conflito entre os homens rivais se acentua.

Na montagem de Zeffirelli, a 2° parte do 3° ato se transforma em outro ato:
4° ato – Praça de touros – pôsters imensos com toureiros – Carmen e Don José duelam com suas vozes admiráveis, entretanto, na metade, começa a pingar de novo, os músicos tornam a correr para proteger os instrumentos, e…uma voz ao megafone avisa que o serviço meteorológico não prevê melhoria do tempo, portanto… interrompem e cancelam definitivamente o espetáculo – fica-se sem a conclusão, mistério para quem não conhece o final… somente recordando a história, as leituras, os filmes sobre o tema: Carmen morre apunhalada pelo ciúme de D. José, enquanto na praça de touros se faz vitorioso seu toureiro Escamillo.

Apesar do contratempo e da frustração, o estranho é que não se sai chateado ou com raiva, talvez as pequenas interrupções antecipatórias, a chuva quase em gotas que vai preparando para o desfecho fatal de não haver desfecho. Porque o espetáculo é tão lindo, somos invadidos por emoções estéticas visuais tão fortes e sonoras, a música transporta de tal maneira, os cenários deslumbram, aquela quantidade de pessoas sentadas silenciosas, respeitosas, quase em êxtase juntas, o conjunto todo do espetáculo é tão grandioso e harmonioso, que é mero detalhe aquela meia hora “perdida”.

Ao menos nesta versão interrompida, Carmen não morre. Esperam-nos ainda duas horas na estação ferroviária de Verona, para tomarmos o trem Euro-notte que nos levará de volta à Bologna, onde chegaremos quase com a alvorada raiando. Pacificadas com a beleza da noite vivida.

BERENICE SICA LAMAS
(*) psicóloga e escritora, atualmente vive em Bologna, Itália.

4 respostas para “e… em Verona, Carmen não morre”

  1. Matteo Says:

    Bellissimo testo. Grazie a tutto lo staff di “vidraguas” per rendere questo possibile, cioè, lìinformazioni che vanno oltre limiti, senza confini… complimenti.

  2. Marli Marlene Hintz Says:

    Parabéns, amiga. Como já diz o ditado: “Quem sabe, sabe …” Eu diria: “Quem escreve, escreve”. Lindo texto. Parabéns!

  3. Myrna Cicely Says:

    Ficou lindo teu texto! A emoção compartilhada por todo entorno e pela beleza da música afastou a frustração pela chegada da chuva!!!!

  4. elenice Says:

    Maravilhosa descrição…desfrutei cada cena, cada emoção contigo.. grata por compartilhar conosco da tua própria emoção e deste maravilhoso espetáculo , o qual não tivemos o privilégio de assistir.

deixe um recado