Archive for julho 20th, 2009

ao dia do amigo, Mario Quintana

cartier_bresson

AH, SIM, A VELHA POESIA…

Poesia a minha velha amiga…
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma…
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas…)
O primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmera de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo, lá fora, os grilos?
Sim, os grilos…
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões um lápis verde um retrato
amarelecido um velho ovo de costura os teus pecados
as reivindicações as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger de dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos…
Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece que nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

Mario Quintana, A Vaca e o Hipogrifo, pg.200 e 201, Coleção Folha- Grandes Escritores Brasileiros