vestido de veludo, um poema de Taís Guimarães
Vestido de veludo
Vou me vestir de veludo
e esperar a noite.
Na minha casa
ela entra devagar,
pedindo licença,
trazendo a hora
de guardar tintas e pincéis.
A tela inacabada ainda quer falar.
Vou me vestir de veludo
para esperar a noite
dona dos cheiros
dos jasmins dos montes.
A mesa está posta.
A cama feita.
Os livros espalhados pelo chão.
O céu já se colore
mais que o quadro.
A cigarra, perdida na cidade,
teima em gritar
seu grito de agonia.
A lagartixa que me visita todo dia
já se arrasta nas paredes da varanda
sob o olhar atento dos meus gatos.
Mesmo os bichos
sabem dessas horas
que vão chegar
no barulho do relógio.
Mesmo a flor se fecha
e o mar se acalma
e os frutos das árvores
não amadurecem agora.
Vou me vestir de veludo
e esperar.
Taís Guimarães – Noite Vermelha, pg. 74
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