visitando Dostoievski e Anna Akhmatova
Museus literários em São Petersburg
por Berenice Sica Lamas

O museu Fiodor Mikhailovic Dostoievski em São Petersburg (ex-Leningrado) na Rússia, situa-se na rua Kuzhnechny, na casa em que o renomado escritor russo viveu os 3 últimos anos de sua vida, de 1878 a 1881 , com sua segunda mulher e alguns filhos.
O ambiente do apartamento respira seriedade, transmitindo uma sensação de respeito e louvor. O silêncio e o recolhimento. Simplicidade. Poucos visitantes de cada vez.
Divide-se em literário e memorial – as peças (seções) se sucedem: banheiro, quarto de dormir, quarto com brinquedos de criança, sala de jantar, gabinete/escritório, cozinha. Através do mobiliário, objetos, artefatos, pertences, papéis, desfila sua história – talento criativo, prisão (a visão da corrente enferrujada que prendia a perna é tenebrosa), exílio – sua genialidade literária – páginas de seu último romance Os Irmãos Karamazov – que aqui escreveu. Às vezes dormia no sofá do gabinete.

Seus pertences – capote, chapéu no cabide, guarda chuva, porcelanas, móveis, objetos de decoração e de uso cotidiano – escrivaninhas, cadeira de balanço, quadros, candelabros, relógios, porta-retratos, porta-lápis, jarra de lavar-se – e papéis referentes à sua vida desfilam ante nossos olhos trazendo uma memória antiga e suscitando imaginações. É possível conhecermos um pouco mais do escritor e da pessoa. Vê-se o quadro “Nossa senhora das dores”, verdadeiro ícone para o escritor
Leia toda a cartografia poética…
Percebe-se que as fotografias de família e amigos eram muito valorizadas. Aparecem referências as suas viagens à Europa e cidades onde esteve: Berlim, Paris, Roma, Firenze, Londres, Colônia, Dresden e seus romances traduzidos em diversas línguas no mundo. Também são mostrados trabalhos em artes plásticas: bicos de pena, aquarelas, desenhos, caricaturas. Podem-se intuir seus tormentos.
Há um vídeo muito lindo e expressivo nas imagens, mas infelizmente o áudio somente no idioma russo. A aparelhagem moderna foi doação do governo norueguês. Há material explicativo plastificado disponível em russo e inglês. O museu toca a sensibilidade, a visita emociona, aproxima o visitante do tempo do escritor, deixando o espírito um tanto reflexivo. Um sentimento de nostalgia e quase reverência.

O museu da grande poeta russa Anna Akhmatova (1889-1966)

Portrait by Nathan Altman of Anna Akhmatova, 1914
organiza-se na Casa da Fonte, antigo Pálacio Seremetev à rua Liteiny, em meio a um jardim com fontes, árvores, plantas, relvas e flores, onde a poeta viveu por mais de 30 anos, preservando as peças da casa com seu mobiliário, pertences, fotografias, objetos, artefatos, prateleiras com livros e tendo o significado cronológico de 10 épocas. Em inglês e russo, à disposição em cada peça, textos informativos e explicativos.
Alguns versos e frases suas aparecem gravados em vidros, num resultado estético muito bonito. Muitos espelhos. Quadros. Abajures. Estatuetas dentro de um armário. Uma mesa com o tabuleiro de xadrez já esculpido e desenhado na madeira. Uma vitrola e uma máquina fotográfica antiquíssimas. Baú, valises, bolsa e casaco pendurados num cabide de parede. Galhos de flor de pessegueiro num vaso. Telefone de parede. Leques e máscaras.
Ambiente austero, cozinha rústica, tudo muito frugal, sóbrio e despojado, denotando a época vivida. Escreveu os livros: Noite, Rosário, Bando Branco, Anno Dommini, Réquiem, Poema sem um herói, Eu sou a sua voz, A corrida do tempo, entre outros. Amiga de Boris Pasternak e Amedeo Modigliani.

Enfrentou a morte do amigo Maiakovski em 1930 e vivenciou o terror de Stalin entre 30 e 40 – que mergulhou a Rússia num banho de sangue – e também a Rússia invadida por Hitler em 41. Experenciou o silêncio e a expulsão da associação de poetas em sua cidade. Ganhou o título de doutor honoris causa na Universidade de Oxford na Inglaterra em 1965.
Sua poesia inovadora, compacta, precisa e impensável fora do contexto histórico soviético, é quase reverenciada na Rússia, e traduzida em vários países. Fala dos fantasmas do passado, da angústia da existência, da história vivida, do ser humano e sua dignidade, do equilíbrio dos contrários. O museu resgata sua imagem, sua criatividade e obra poética, mostrando de modo também sóbrio e criativo, a pessoa que a poeta Anna foi e como vivia.
Foram dois museus literários que tive a oportunidade e alegria de visitar em agosto/08, na ocasião de uma estada em São Petersburg.
(*) Psicóloga e escritora, atualmente vive em Bologna,Itália.