em palavras, uma visita ao Museu da Língua Portuguesa em São Paulo
COM SABOR DE LÍNGUA PORTUGUESA
Berenice Sica Lamas
Em março de 2006, Inaugura-se o Museu da Língua Portuguesa na Praça da Luz no Bairro da Luz em São Paulo – uns meses depois tomo um avião de manhã bem cedinho para uma visita que me deslumbra.

Trata-se de um projeto quase único, inédito, somente existindo na África um local semelhante para cuidar de um idioma. A transformação e adaptação do local – de três andares – o prédio do início do século da Estação da Luz é bastante simbólico, já que a esta estação confluíam os imigrantes chegados a São Paulo com toda sua babel de outros idiomas.

A proposta e seus objetivos, as exposições, a origem, história e evolução da língua, a virtualidade lúdica, a combinação de arte e tecnologia, as cores e luzes e sombras, o impacto de tanta informação e aprendizagens, ambientes moderníssimos, elevadores transparentes – Fernando Pessoa, Guimarães Rosa (homenagem aos 50 anos do Grande sertão: veredas), Clarice Lispector – instalações instigantes. A imensa escultura “A árvore da língua”. Os espaços “A árvore da palavra”, “O beco das palavras” ou “Jogo da etimologia”, “As palavras cruzadas”. Trata-se de um museu interativo, onde a língua parece estar viva (paradoxalmente num museu) e dialogar conosco. Que deleite, tanta e tanta palavra…

Leia toda a cartografia…
Sou engolfada numa atmosfera quase surreal do idioma. Vivo um prazer estético e intelectual muito intenso, uma vera fruição. Novidades, descobertas e redescobertas, surpresas, jogos interativos, isto e muito mais que nos espera dentro desta casa maravilhosa. Não se pode permanecer passivo, o museu adentra sentidos e corpo, provoca sensações. Interagirmos com os olhos, ouvidos, mãos, dedos. Podemos movimentar bocados de palavras e ludicamente formar outras.

Podemos ouvir o modo de falar em cada estado do Brasil a um toque em seu mapa. Podemos observar a transformação e a dinâmica do português através das raízes latinas, gregas e indo-européias e depois a influência indígena e africana, uma linha do tempo com mais de seis mil anos de história.

Entramos em contato com todas as outras regiões e países do mundo onde se usa o português. Sons, imagens, filmes, vídeos, documentários. Somente no imenso painel de uma espécie de túnel e estação de trem passam mais de 10 filmes simultâneos. Ficamos tontos escolhendo onde ir e o que ver primeiro. Cordas que balançam no rosto, degraus e patamares para agirmos, tijolos para construção do que desejarmos, tonéis, folhas imensas para puxar.

Podemos ler através de espelhos, água, lunetas, lentes, letras de todos os tamanhos, cores e formatos. As galáxias de Clarice, Pessoa e Rosa – três magos da dança das palavras. Podemos ler a história de Riobaldo e Diadorim toda pendurada no teto. Somos enlaçados por estes universos linguísticos, representantes irrepreensíveis de nosso falar. A suavidade, rudeza, sonoridade, ambiguidade, beleza, polissemia, desafios do português, tudo ali, a língua destripada, com as lindas entranhas à mostra.

Na Praça da língua uma notável interação entre teto e piso, uma espécie de planetário, sou capturada em uma espiral de efeitos sonoros e visuais, ouço as vozes de Chico, Betânia, Arnaldo Antunes, Paulo José e outros dizendo letras de canções, textos poéticos e de prosa de escritores e poetas igualmente conhecidos. A palavra poética úmida cintila. E no banheiro, surpresa! a contaminação linguística continua…
Sobra um tempinho para perambular um pouco pelas ruas paulistas – um tanto temerosa no entanto, pelas notícias da violência urbana – e volto no voo daquela noite, mais apaixonada ainda por minha língua materna. Encontrei pessoas amáveis que informaram e orientaram na questão dos deslocamentos, das linhas de ônibus. Gosto muito de fazer coisas como esta. Nem me importei de chegar de madrugada (trabalhava cedo no outro dia), tão leve estava. Satisfeita comigo mesma de poder me presentear com algo que me faz feliz. Sai flanando e permaneci enlevada por várias semanas.

Frases colhidas no museu, que museu!! : “quem não vê bem uma palavra, não pode ver uma alma” ; “não existe humanidade sem língua”; “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”; “a língua fala por si”; “o sertão é do tamanho do mundo”.
Duzentas e trinta milhões de pessoas falam o português (como língua materna) no mundo. E mais uns milhões o elegem como segunda língua. A língua é nossa pátria, é realmente nossa mãe, nossa mãe da cultura, nossa capacitação para nos comunicarmos, ela nos pega no colo e nos alimenta, nos protege das intempéries e incompreensões de outras línguas. Não poder se comunicar é das mais desgostosas e desagradáveis experiências que se pode atravessar. A língua materna é muito forte em nós, mas se não fosse, assim não se chamaria…

Valorizei como nunca minha linguamadre – como dizem os italianos – anos mais tarde quando vivia na Itália. O público em geral se motiva e mobiliza muito ao escutar poemas em português, o ritmo, a musicalidade, a sonoridade da pronuncia de certas consoantes e vogais. Consideram-no suave e agradável ao ouvido. Tenho uma colega do grupo de poesia que diz sentir vontade de sair dançando enquanto me escuta ler poemas em português.

Pra mim, a maior importância deste museu é realmente conscientizar, sensibilizar, fazer valorizar e promover outra noção e visão sobre a língua que falamos, lemos, escrevemos, sendo a ponte de nossa comunicação cotidiana e em que se expressam tão belas obras literárias. Saberes. Sabores. Fruição estética, sensível. Visita apetitosa. Acervo de palavras vivas.