obscuro domínio, um poema de Eugénio de Andrade

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Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.


Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.


Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.


Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,


no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,


onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio (1972) e Poesia.

Fonte:http://saldalingua.wordpress.com/

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