Bologna habitada
Bologna
por Berenice Sica Lamas

Bologna deserta
silenciosa
se torna campo prado
oca cicatriz
no coraçao de Emilia-Romagna
Bologna suspira,
sozinha
a cidade vazia
calor e medo
sol resplandece
pessoas partem à
praia, campanha, montanha
é ferragosto na
cidade coagulada
vitrinas constrangem ao consumo
gatos de prata espelhos do tempo
cultivam crimes insolúveis em café solúvel
pesadas portas de madeira
fechaduras gigantes
cidade labirinto
de calendário invertido:
onde Natal é inverno
neva na Páscoa
não tem Carnaval
dia dos namorados, fevereiro
flores não desabrocham em setembro
onde o Cruzeiro do Sul?
esférica circunferência
mapa redondo, Bologna
complexidade e voragem
veludo e pedra
casario e verdeza
bela forma de uma teia
aranha e insetos
cidade que captura, ao mesmo tempo
capturada
ruas, fios; esquinas, nós
e o viale marginal circundante
a borda: o muro, ruínas
o resto, periferia: fora do muro
Bologna engolfa
devora
devolve
no vazio de ferragosto
o fio da minha vida
as ruas dos passos meus
Leia toda a cartografia
BOLOGNA

Uma cidade me queima a alma uma cidade me prende me cheira me bate me vira a cara me repele porque é gorda (grassa) vermelha (rossa) e culta (dotta) e ainda capital da música arpejos solfejos sustenidos bemóis falanges falanginhas falangetas caminho na ponta dos pés bailarina sem sapatilhas flutuo entre suas cores terrosas e ocres entre seus pórticos e colunas, às vezes pórticos e colunas me pesam n’ alma. Arqueologias, visões, transfigurações modernas. De que adiantam a gastronomia e a riqueza, as idéias de esquerda e a universidade antiquíssima? Grafites vândalos emporcalham tua paisagem, pedintes pelas ruas, recém-formados sem trabalho, imigrantes explorados, assaltos, escritórios burocratizados.

Cidade esférica, mapa redondo, circundam as ruínas do muro medieval, “portas” de majestade, construções medievais. Expressão artística e linguagem. Complexidade, voragem, vertigem, veludo pedra teia de aranha, ruas estreitas, fios, ângulos, cicatriz vazia, uma cidade que suspira, solitária. Indolente. Apesar dos trens, ônibus e aviões.
Cidade que não compreende, plena de imagens, venal faz mal, mensagens em contradição, não adianta escavar que a criatividade evapora, kitsch, sob o manto das tradições, te desvendei, cidade. Todavia és ainda cheia de mistérios. Um dragão de palha e areia, quero descobrir teu coração, se o tiveres. Teus detalhes singulares. Um dos símbolos: duas torres assimétricas Asinelli alta e inclinada e Garisenda baixinha e coartada.
O Netuno na praça reinando em um mar ausente de navios-fantasmas. Sob a pele, subterrâneos, riachos quase secos, trevas, ruínas, belezas de uma recôndita antiguidade. Cidade de poetas singulares. E vermelhos crepúsculos emoldurados pela belíssima cúpula do Santuário São Lucas, que domina a cidade do alto da colina.

Uma cidade me engolfa, fascina, amarga e agridoce, me desestabiliza e redesenha a identidade. Sibila em meus ouvidos e me conduz pela mão. O fio de minha vida e as ruas de meus passos. Uma cidade coagulada, pingo e nó de mercúrio no centro norte do país. Viajora. Me faz poeta. Não habito nesta cidade.
Berenice Sica Lamas, Poeta e Escritora, escrevendo à Vidráguas desde Bologna.
Fotografia: Amilcar Sica Lamas e Cassio Lamas Pires
outubro 7th, 2009 at 8:24
Lindo texto e fotos! E pra quem conhece Bologna… sò a Bere para colocar em palavras tanta beleza e contradiçao. Artista!
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outubro 28th, 2010 at 13:46
Que cidade linda. Muito exótica.
maio 21st, 2012 at 16:54
Belo texto… em breve, irei à Bolonha estudar. Fiquei até ansioso.