pensando a Poesia com Armindo Trevisan
A Linguagem Inventa o Poeta

“ I
O Poeta não nasce poeta, nasce dentro de um poema, o povo ao qual pertence. Inaugurando o mundo com suas mãos e pés, a criança, sobrevivente de oito milhões de anos, não traz uma linguagem consigo, é trazida pela linguagem, que gerou juntamente com os seus ossos e sangue. O futuro poeta alfabetiza-se antes de nascer. A língua, que seus pais falam, antes de ser modelagem oral, foi uma determinada forma de ser. Na medida em que a criança é imersa nessa linguagem, perde sua inocência, a fim de transformar-se num pequeno poeta de determinada língua, entre as muitas que celebram o mundo. Ao aprender dizer: rosa, pedra, mais simplesmente papai, está aprendendo a ser e expressar-se debaixo de um céu, de tal sombra de árvore, com paixão e morte de milhões de severinos a arder sobre sua incipiente língua. Imaginar que um poeta é criador, é iludir-se; o poeta, ao invés de servir-se de uma língua, serve-a.
leia todo o artigo
II
Tão diversas são as língua entre si que é possível sustentar-se que a língua de um povo é sua prisão ou liberdade. Em algumas épocas, a língua se aprisiona, noutras, liberta-se. Nesta sístole e diástole o poeta tem algo a fazer, pois é um poeta: um fazedor. Sua práxis não possui a eficácia das práxis que trabalham o material definidos do bronze, do mármore, do aço. Mas seu material é também um material: possui resistência e flexibilidade. A palavra, ou antes, a frase, que o poeta trabalha, constitui uma realidade própria com leis físicas e metafísicas. O problema reside aí: a palavra não é um material polivalente a partir de seu interior também. Só que esse interior não é propriedade privada. Sendo o bem humano mais comum, todos o possuem, ninguém o possui. O monólogo tende a transcender-se. É uma palavra em busca de um interlocutor, isto é, uma palavra tresmalhada, ou então, uma palavra que se suicida, a protestar contra suas companheiras. Sempre uma palavra no meio de outras palavras.
III
Que faz o poeta se não adensar o silêncio? Um poema é uma ou várias palavras rodeadas de silêncio por todos os lados. O silêncio não subsiste por si mesmo. É como a palavra: um espaço dentro do qual a significação circula. O silêncio é o lado invisível da palavra. Todo poeta sabe disso; sabe que uma palavra só tem valor na medida em que consegue expelir de si outras palavras. O silêncio excessivo depaupera a palavra; a ausência de silêncio torna-se obesa. Um poema por demais austero acaba por extraviar-se; um poema por demais loquaz mergulha na loucura. Saber deter-se no ponto preciso em que se opera a síntese, em se realiza o beijo da palavra e do silêncio, eis a poesia. O poema não é mais do que a sombra enternecida deste encontro.”
Armindo Trevisan, p. 23,24, Reflexões Sobre a Poesia, InPress.