pensando a Poesia com Wislawa Szimborska

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“ Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser evidentemente publicados, lidos e compreendidos, mas nada fazem, ou nada de significativo, para que no dia-a-dia possam se destacar entre as outras pessoas. E ainda não muito tempo atrás, nos primeiros dez anos de nosso século, os poetas gostavam de chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Unicamente para encher os olhos do público. Chegava o momento em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar – em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos – a folha de papel ainda em branco. Pois, no final é isso que, de fato conta.
(…)

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A inspiração não é um privilégio exclusivo dos poetas e artistas em geral. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram seu trabalho e o fazem com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros e ainda uma centena de outras profissões. Seu trabalho torna-se uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios.(…) Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo ‘não sei’, as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo, no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com apetite. Se a minha compatriota Marie Sklodowska-Curie nunca tivesse dito a si mesma ‘ não sei’, na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade para mocinhas de boa família – e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho. Ma ela não parou de dizer ‘não sei’, e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempo em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.
(…)

Claro, na fala cotidiana, em que não refletimos a cada momento para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como ‘o mundo comum’, ‘vida comum’, ‘o desenrolar comum dos acontecimentos’. Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E, sobretudo, nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Parece, então, que os poetas terão sempre muito trabalho.”

Tiago Halewicz, p.p.61, 62, 63, Memória Cultural Polonesa, R&O Editores

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