pensando a Poesia com Donaldo Schüler
Lugares – o lugar da poesia
“Na noite de doze de maio de 2008, Gerald Thomas, em Fronteiras do Pensamento, ensaiou um gesto iconoclasta radical: negando a arte, o pensamento – tudo o que realizou até aqui – propôs a discussão da miséria, da violência, da política partidária. O gesto não é novo. Diógenes, no quarto século a.C., em protesto contra elucubrações verbais, anda, munido de lanterna, pelas ruas de Atenas, à procura de um homem. O cético Sexto, no segundo século da nossa era, investindo contra a especulação, opta por um comportamento empírico. Nietzsche, quebrando as tábuas da lei, derruba, em fins do século XIX, todos os valores. Marcel Duchamp, no início do século XX, envia um vaso de urinar a uma exposição de arte. John Cage reinventa a música com instrumentos danificados. O irreverente Caetano Veloso, no fervor do Movimento Tropicalista, espanta platéias com evoluções inusuais. Gerald Thomas, à tarde do mesmo dia doze, numa entrevista coletiva, perguntado se a poesia seria um antídoto contra a violência, respondeu categoricamente “não”.
Catástrofes esporádicas dessa natureza beneficiam a arte e pensamento, obrigando artistas e pensadores a refletir sobre o que fazem. Declará-las, entretanto, definitivas, seria afirmar o apocalipse. Em lugar do fim catastrófico, escolho a regeneração. Sem poesia, bombas continuarão a enlutar povos oprimidos. Sem poesia, choques armados continuarão a ensanguentar ruas e ruelas nas grandes cidades. Sem poesia, troncos continuarão a fumegar em florestas incendiadas. Populações famintas necessitam mais do que pão para sobreviver. Vivem, como todos nós: de ócio, de religião, de mitos, de sonhos, de amor, de arte… Em lugar de condenar espetáculos teatrais, tratemos de torná-los acessível a todos.

Leia todo o recorte de leitura do livro: Fronteiras e Confrontos
Como viver sem poesia? Desejamos a Norbert uma existência que se equilibre entre o sonho e a realidade. Se o sonho não nos acode nas agruras da vida, para onde fugir? As portas abertas da gaiola olimpam o caminho entre o sonho e as obrigações de todos os dias. O insucesso de imitar os passos de Gradiva marca a falência de todo artista. O que realizamos habita aquém dos territórios almejados.
Contra o absolutismo da ciência, a arte conquista território próprio. Desamparado de apoio metafísico, o sensível se degrada em Flores do mal. O sonho passa a empunhar o centro da razão destronada. A poesia de Baudelaire inventa uma floresta de símbolos.
Joyce refugia-se na arte. Para o ficcionista irlandês, o sensível só cobra sentido, artisticamente reelaborado. Recusando a solução joyciana, Kafka propõe conflitos insuperáveis.
Para alimentar a imaginação, as lendas opressivas terão que morrer primeiro. Poesia é invenção, movimento criativo ao diverso, ao totalmente outro, fundação do que ainda não é. A poesia rompe com a submissão infantil para arregimentar forças que alicercem ações responsáveis. Só despertos sabem poetizar a vida…”
Donaldo Schüler, pp.174,184,189, Fronteiras e Confrontos, Editora Movimento.