pensando a Poesia com Manoel de Barros
Poeta é um ser escaleno.

“Tudo, creio, já foi pensado e dito por tantos e tontos. Ou quase tudo. Ou quase tontos. De modo que não há novidades debaixo do sol – e isso também já foi dito. “Os temas do mundo são pouco numerosos e os arranjos são infinitos” – falou Barthes. Então, o que se pode fazer de melhor é dizer de outra forma. É des-ter o assunto. Se for para tirar gosto poético, vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichês. Subverter a sintaxe até a castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.
O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injetar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas tudo isso é tal antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.

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Poeta é um ser escaleno. São seres desconstruidos por suas palavras. A matéria da poesia são todas as palavras. Lata pedra rosa sapo nuvem – podem ser matéria de poesia. Só que as palavras assim em estado de dicionário, não trazem a poesia ou a anti-poesia nelas, inerentes. O envolvimento emocional do poeta com essas palavras e o tratamento artístico que lhes consiga dar, – isso que poderá fazer delas matéria de poesia. Ou não fazer. Mas isso é tão antigo como chover. É nos sentidos que a poesia tem fonte: poesia não é para compreender, mas para incorporar. Poeta não tem compromisso com a verdade, senão talvez com a verossimilhança. Não há de ser com a razão, mas com a inocência animal que se enfrenta um poema. A lascívia é vermelha, o desejo arde, o perfume excita. Tem que se compreender isso? Ou apenas sentir? Poeta não é necessariamente um intelectual; mas é necessariamente um sensual. Me agradam mais aqueles que se atrevem do que aqueles que se atém. Me encantam os palhaços que se aproveitam das bobagens para pungir as verdades. Os que renovam a escrita prefiro aos que a imitam. Aqueles que mudam os dados do jogo resgatam meus goros.
Poesia é também um pouco ser pego de surpresa pelas palavras. Amigo meu, certa vez, Nelson Nassif, poeta oral dito e ouvido, saiu-se com esta: Hoje minha boca não esta idônea para o beijo. Tomei uma surpresa poética. Aquele adjetivo idônea saiu de seu habitual contexto de responsabilidade (cargo idôneo, firma idônea, etc) e veio se encostar em uma boca! Entrou em contexto de volúpia. Molecou o idioma.
Na verdade me preparei a vida inteira para fazer frases dementadas. Penso que meus versos se sustentam no fio do ritmo. Quero que as ressonâncias verbais dominem o semântico. Eu escrevo o rumor das palavras. Não tenho proporção para episódios.”
MANOEL DE BARROS – Gramática expositiva do chão – conversas por escrito – entrevista – Ed. Civilização brasileira, 1996 – pag 312 a 316 (fragmentos e recortes).