Pensando a Poesia com Charles Kiefer
Os versos do ofício

Um ofício estranho
por Charles Kiefer
Sou professor de poesia, embora isto soe estranhamente estranho, como soa estranho essa estranha palavra “estranho”, do latim extraneus. Aliás, fazer isso, brincar com as palavras, estudá-las, localizar sua origem, examinar suas variantes, é um bom caminho para quem deseja versificar. Afinal, é disto que se trata. No limite, a diferença entre o poeta e o escritor é que aquele utiliza o verso como veículo de sua expressão, e este, a prosa.
Ai, o espírito de Aristóteles quase me arrancou a orelha!
Sim, mestre, exagerei. É claro que me lembro que disseste que o historiador pode escrever em versos e nem por isso estará fazendo poesia. É que do teu tempo para o nosso, inventamos outras formas literárias, como o conto, a crônica, a novela, o romance. Tivesse nascido hoje, Sófocles, teu admirado Sófocles, escreveria em prosa!
Sou professor de poesia, na PUC. Isto mesmo. Dou uma cadeira, na graduação, que se chama “Produção de Textos Poéticos”. Estudamos poeticidade, formas, metros, ritmos, harmonia e muitas outras tecniquerias, como diria o Unamuno. Mas, mais que teoria, fazemos poesia.
Os críticos das oficinas dirão que isto é impossível. Que a poesia é um dom divino e que só os eleitos são capazes de produzi-la. É impressionante como a aristocracia de espírito ainda tem adeptos!
Indiferente a esse platonismo de província, recebo alunos e alunas que nunca escreveram um verso, que sequer leram bons poemas, e que, em três meses, são capazes de apresentar suas produções poéticas em saraus nas livrarias da cidade.
Milagre? Não, método.

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