pensando a poesia com Ronald Augusto
“…A poesia é, por definição, linguagem em crise…”
Cada poema é um lance no jogo de conquista – ou de negaceio – do impreciso. A rigor a poesia não esclarece coisa nenhuma, nem se presta à transmissão de mensagens sem rasuras. A mensagem poética tende a ser mais ambígua. Seu fazer, que é afasia (distúrbio de linguagem e de comunicação), parece pretender ficar rente àquelas zonas mais obscuras e insondáveis da experiência. Seu movimento sígnico em realidade busca não dissimular, mas sim problematizar um aspecto crítico da linguagem, ao qual não se dá a devida atenção, a saber: a crença infundada de que apenas uma linguagem articulada (a prosa, por exemplo) e seu corolário – uma objetividade desinteressada e quase transparente -, é capaz de iluminar e decodificar o íntimo dos seres e das coisas. Mais do que “signo tradutor por excelência”, a palavra como legenda se depara o tempo todo com as suas margens e sua arbitrariedade.
O poeta exercita formas vertiginosas do signo linguístico. Seu exercício e os instrumentos de expressão de que se utiliza, ao fim e ao cabo, serão considerados a partir de um objeto estético construído seja sob que motivação social, individual ou metafísica, enfim, desde os contornos de uma objetividade definida ou, ainda, desde uma subjetividade tornada precisa: o poema mesmo, ser de linguagem que apresenta uma coesão fundo-forma.

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O poema é um compósito de signos. Palavras e idéias: signos de signos. Dizem uns que o poema é um “ser de linguagem”, outros apresentam-no como “coisa-pensamento”. Ambas formulações são interessantes, pois nelas não se recusa ao poema nem a dimensão material, nem a pulsão ideográfica. Não há um pensamento sequer que permaneça, como que mumificado, no poema. Na leitura seguinte desse mesmo (?) poema, um outro pensamento saltará da cartola da interpretação. Não há, propriamente falando, um logos estável – conteúdo duro – encarnado de uma vez para sempre no poema, muito embora o senso comum reconheça uma formidável equivalência entre linguagem e pensamento, tanto que em resposta a isso se cunhou a expressão “trocar uma(s) idéia(s)”, que indica a intenção ou ato de conversar, dialogar com outrem. Toda obra criativa está condenada a algum índice de novidade, pois cada poema inaugura e exaure uma chance de linguagem. Isto é, como todo indivíduo, o poema carrega em seu centro aquele bit informacional que o singulariza diante dos seus pares. Ele é irrepetível. O leitor produz, a partir do seu desejo de linguagem, uma versão que mais se presta a uma di-versão do que a qualquer outra coisa. Cada nova leitura indicaria, assim, um desvio de rota.
A (im)pertinência comunicativa da poesia volta a fazer sentido na mesma medida em que a pós-modernidade ou um suposto “pós-tudo” instauram a nulidade de qualquer reação moral e a defesa, na esfera estética, do novo pelo novo sem conexão com o passado. Enquanto os conceitos perdem consistência e clareza, a poesia persiste naquilo que sempre foi a marca de sua intrínseca originalidade transgressora, a saber, linguagem que beira o silêncio, silêncio na iminência de converter-se em linguagem desprovida de falantes. Som e pausa. Um mínimo de retórica, para um máximo de significação. O poeta, ao carregar a linguagem de significado, não objetiva outra coisa senão subverter a visão, não raro deturpada, da realidade que nos condiciona. Com esta ação simples, ordinária em se tratando de operação poética, sua tarefa já incorpora por si só uma pulsão contestadora.
Na comunicação poética, ao invés de uma “mensagem” – um conteúdo duro, situado, como se fora possível, antes ou depois da fatura mesma do poema -, o que se comunica é um poema, esta verdadeira tensão-coesão de som e sentido. Isto é, temos aí uma transmissão mais de formas do que de conteúdos. Neste caso, o leitor não decodifica o poema-mensagem, pois não há acordo prévio, nem convenção normatizando as relações semânticas, ele o re-inventa, ou o interpreta (em sentido musical). Com efeito, o poema “de saída” criado pelo poeta não é o mesmo poema “de chegada”; neste ponto de dobra o leitor o frui na liberdade do seu silêncio, na música do seu pensamento ou, ainda, no ritmo da sua enunciação vocal.
A signagem poética, ao fim e ao cabo, não diz o que vai no mais íntimo do silêncio ou do vazio metafísicos. Com efeito, a poesia, a par de sua efemeridade (um acabar-começar de linguagem), tenta comunicar por meio de procedimentos estéticos e formais (rima, aliteração, paronomásia, metro, espaços em branco, etc.), isto é, tenta plasmar, ou presentificar como coisa-pensamento, como signo, aquilo de que, antes, não se podia falar. O indizível se resolve, ou passa a ser aludido, então, num poema: silêncios e vazios ativos, corpóreos.
A poesia é, por definição, linguagem em crise (em outras palavras, criativa), ser de linguagem, coisa-pensamento com vocação metalingüística, lugar em que os dilemas fundamentais de uma época são problematizados a partir dos seus estratos sígnicos. Ou seja, a realidade não é algo apreensível, capturável; não cabe na imagem de um bloco monolítico. O real se assemelha a algo em construção, em processo; um campo de possibilidades e sempre mediado por signos. A realidade, então, precisa ser lida, decodificada. E a cada leitura obtemos um sentido provável para o instante precário. Revogação e re-evocação. O real faz sentido ou desdobra seus limites, apenas quando — entre os parênteses do pensamento — o suspendemos como interpretação. Portanto, o entorno estimulante da máquina do mundo é produto de um ou mais pontos de vista. Pressupõe o concurso das subjetividades e dos esquivos e equívocos jogos de linguagem.
Ronald Augusto da Costa – Poesia: a precisão do impreciso; Lendo a novidade ilegível; a comunicação do ponto de vista da poesia; Capítulos em defesa da (im)pertinência da poesia – O texto em questão foi composto por fragmentos/recortes de textos ensaisticos disponibilizado aos alunos em suas oficinas de poesia e no site Sibila – Porto Alegre, 2007/08.
janeiro 12th, 2010 at 17:11
Olá! Texto bem construído, sobre uma questão que, assim como qualquer bom poema, possui muitas formas de ser pensada.
Parabéns!
janeiro 20th, 2010 at 15:48
Lembrando uma frase que li há muito, o que o poeta desconhece, o poema sabe.