onde está o Haiti?!
NÃO É TÃO LONGE O HAITI
por Affonso Romano de Sant’Anna

Essa rebelião no Haiti, a derrubada de Aristides, o país patrulhado por marines americanos, os rebeldes desfilando com metralhadoras em jipes, gente saqueando e celebrando essa rebelião, esse golpe e essa baderna, coincidiram com a leitura que fazia de um livro onde o Haiti é muito citado: História ilustrada da escravidão, de Milton Meltzer(Ediouro).

É um livro leve, o quanto terrivelmente leve pode ser um livro sobre a escravidão, que começa lembrando que para alguns historiadores a escravidão é um passo a frente no desenvolvimento da civilização, pois houve um tempo de barbárie ainda mais atroz, em que, nas guerras, os prisioneiros eram simplesmente mortos, porque não havia alimentos de caça para todos, enquanto em outro período, já com a agricultura se desenvolvendo, descobriu-se que os vencidos podiam ser utilizados como escravos para ajudar no sustento das tribos e propiciar o ócio aos vencedores.
Leia toda a crônica colada aqui ou no blog do autor:http://www.affonsoromano.com.br/blog/
E assim a história vem, econômica e desumanamente, sendo formulada desde as civilizações entre o Trigre e o Eufrates, passando pela sofisticada Grécia, até o Haiti, lá em cima e o Brasil, cá embaixo, onde o trabalho forçado, em fazendas na Amazônia ou em Minas, ainda é um vergonhoso tópico presente nos jornais e nos relatórios da ONU.
Ia vendo na televisão as cenas de guerrilha e caos urbano no Haiti e ia lendo a história patética daquele país que teve a maior concentração de negros no Novo Mundo. E ali aprendo que: proporcionalmente às suas dimensões, nenhum país do mundo produzia tanta riqueza quanto o Haiti. No século XVIII, aquele mínimo país chegou a ter 600 fazendas de açúcar. E muito do doce fausto barroco que Luiz XIV ostentou em sua corte no século XVII, foi extraído, filtrado do amargo açúcar dos canaviais do Haiti, e do café, do índigo,do tabaco, do algodão e do cacau cultivados nos seus vales e altiplanos. Cidades como Nantes, Bourdeaux e Marseille deviam muito de seu esplendor à desgraça e espoliação nas América crioula A própria Revolução Francesa, que alardeava igualdade, fraternidade e liberdade, não conseguiu que os escravos das colônias tivessem melhor sorte. Por isto, uma das mais abomináveis figuras da história ocidental- conhecida como Napoleão, ferrenhamente aguilhoando a pequena colônia, mandou para lá o general Leclerc com 20 mil soldados- eram os marines daquele tempo- para, como hoje, proteger a liberdade e restaurar o país.
Napoleão teve que enfrentar aquele que é conhecido como o Espártacus do Haiti- o líder negro Toussaint Louverture, muito pequeno, feio e deformado com olhos que pareciam feitos de aço e que estava, a ferro e fogo, reinventando o seu país. O seu nome “Louverture”, veio de ” a abertura”, ou seja, “a abertura” que sempre conseguia fazer nas linhas inimigas, sistematicamente derrotadas. Não conseguindo destruí-lo no campo de batalha, Napoleão usou de outras artimanhas, traindo-o e levando-o para uma masmorra na França onde o líder morreu em 1803.
No Brasil, louva-se Zumbi dos Palmares, que sucumbiu no seu quilombo, celebra-se Chico Rei e outros reis-escravos. Pois no Haiti houve uma sucessão de rebeldes, reis e imperadores negros como Henri Christophe, ex-escravo que se nomeou presidente perpétuo com direito de indicar o sucessor, e que, governando partir de 1807, foi derrubado em 1820 por uma das tantas insurreições militares.
A tragédia do rei Christophe é um dos textos mais importantes da história moderna da negritude. Foi escrita por um martinicano, Aimé Cesaire e é periodicamente encenada em várias partes do mundo, como agora em Montreal. Não me lembro se ou quando foi levada no Brasil. A crítica sempre se refere à saga daquele rei negro, que, antes de assumir o poder, foi general de Toussaint Louverture, como um drama entre Henrique III e Rei Lear. E Aimé Cesaire diz que escolheu esse herói do Haiti, porque esse foi o país no Novo Mundo onde a questão da negritude primeiro apareceu, em 1801, mais de cem anos antes que surgisse no Gongo, Guiné e Mali e outros países. Essa afirmativa precisaria ser melhor verificada, mas de toda forma a peça de Aimé Cesaire é fundamental para se rever não só a questão da opressão colonialista, mas como os intelectuais negros, a partir da segunda metade do século XX começaram, pela arte e pela palavra, a problematizar a questão política, social e cultural em nossos países.
O intelectual haitiano de maior prestigio hoje em dia é René Depestre, que vive numa cidadezinha francesa com sua segunda mulher, uma cubana. Participou de revoluções em seu país, exilou-se aqui e ali, chegou a morar no Brasil, organizou encontros políticos e culturais, por exemplo, com Neruda e Jorge Amado, trabalhou na Unesco e em 1971 rompeu com Fidel Castro.

Há uns quinze anos escrevi sobre um belo livro seu contendo contos eróticos e fantásticos, traduzidos por Estela Abreu e editado pela José Olympio. Chama-se Aleluia para uma mulher-jardim. É uma boa idéia reachar e reler essa obra para reafirmar que a imaginação criadora do artista pode nos levar além dos limites da escravidão e dos golpes e contra-golpes da política.
Se aquele Haiti original não se consegue resolver e continua a ser como certa vez o disse Depestre, um parêntesis em branco desde a sua criação, por outro lado, a obra que testemunha a dor física e metafísica da rebelião reverbera nos texto que nos falam de uma solar eroticidade e de um mágico e alucinado amor, como formas de, no caos, implantar a vida e a esperança.