pensando a Poesia com Cristovão Tezza

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Pensando a Poesia com Cristovão Tezza

“… para Bakhtin o discurso poético em sentido estrito pressupõe uma intensa unidade de linguagem, em todas as suas esferas – uma unidade que acaba por impor certos limites de natureza temática ao poema. Por exemplo, o fato de que a poesia inclina-se sempre a se mover em meio às tendências seculares, em contraposição à mesquinharia, aos limites concretos do aqui e do agora. Sim, porque se a linguagem abre a sua guarda à dimensão concreta do aqui e do agora, se ela dá autonomia a essas vozes presentes na algaravia social que nos cerca, se a linguagem se entrega a essas vozes e passa a ser objeto de avaliação e de relação com outros centros de valor historicamente definidos, o estilo poético, minado pela raiz, se esfarela em prosa, perde sua auto-suficiência e sua força centralizadora, divide-se em dois, relativiza-se, prosifica-se irremediavelmente. O tema concreto do aqui e do agora, o assunto do dia, digamos assim, quando entra na poesia necessariamente despersonaliza-se, transcende-se, ultrapassa o seu limite no tempo e no espaço, isola-se, perde para sempre a ligação concreta com o momento que lhe deu origem, deixa de dialogar com ele e desinteressa-se pela resposta futura.

Acreditamos que a hipótese de Bakhtin na compreensão da linguagem poética oferece-nos uma visão renovada para pensar e situar a questão da poesia no mundo contemporâneo: pelo menos, para livrá-la das categorias ornamentais ou puramente instrumentais com que foi predominantemente tratada no século XX. Bakhtin pode nos dar até mesmo alguma chave para abrir a porta da “crise”, digamos desse modo – alguma compreensão do espaço que resta à poesia no mundo moderno.

O terrível desafio poético do nosso tempo fragmentário, desutópico, individualista e descentralizado é justamente manter a alta dimensão estética numa linguagem que para se fazer ouvir como poesia precisa de auto-suficiência, centralização axiológica, unidade e isolamento. Uma linguagem leiga cuja autoridade semântica, cujo centro de valor, tenha o poder de se fazer ouvir dispensando todas as outras linguagem. Uma voz que sem perder a dimensão estética, chame o valor a si e responda por ele. Uma voz capaz de impor silêncio, de se erguer sobre a dimensão do silêncio e nessa dimensão primeva nos convencer. Claro, falamos aqui de pura poesia, aquele limite poético do espectro quantitativo sugerido por Bakhtin. E, também parece claro, tal limite só seria possível, em tese, sobre o pano de fundo de uma crença comum, de um universo valorativo comum, sob a força unificante, ou centralizadora, como queria Bakhtin: enfim, de uma mitologia.

entre a prosa e a poesia

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Talvez a grande questão poética do novo século que se abre não seja propriamente a crise das formas, ou a crise dos gêneros, ou a crise da linguagem, tomadas em seu sentido composicional – mas, antes de tudo, uma crise axiológica, uma desesperada falta de mitos a quem cantar, convincentemente, a nossa poesia: é a autoridade poética que está em crise. A poesia brasileira, pela inegável vitalidade de seu prosaísmo, um prosaísmo por assim dizer histórico, parece um campo de batalha exemplar dessa crise, que deve ser menos lamentada e mais compreendida.

A hipótese de Bakhtin, quem sabe, ao dessacralizar o império das formas, ao recusar a unilateralidade abstrata do sinal como índice do signo poético e se concentrar nas relações e nas tensões das visões de mundo, nos multifacetados centros de valor que se realizam nas palavras, abre caminho para uma compreensão diferenciada da linguagem poética. Talvez para realizar a sua utopia teórica, o sonho de ultrapassar o breve abismo entre a esterilidade da abstração formal, fora da história e sem sujeito, e a vida concreta, povoada, caótica, única e irrepetível da palavra – o segredo estará em não perder de vista nem uma das pontas dessa passagem.”

Cristovão Tezza, p.p.281, 287,288, ENTRE A PROSA E A POESIA: E O FORMALISMO RUSSO, editora ROCCO.

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