com Rodney Saint Éloi, mais poesia do Haiti

photo © Lorrie Jean-Louis
Montréal, 2008
Minha cidade morreu, foi talvez ontem, ela a estrangeira que mal conheço me telefonou de sua prisão e me disse três palavras por anúncio de uma tragédia: cidade morte súbita. Não me lembra senão o estalar dessa voz do outro lado abafado, sinto não lhes poder dizer a data exata, foi, se bem me lembro, uma manhã dos anos cinqüenta; e minha cidade amnésica está morta como ontem, sem história, sem naufrágio, ao pé de um mar agonizante na caligem do vento.
Minha cidade morreu ontem como a amendoeira morena que me foi amiga, sem geógrafo nem postulante, morreu sem sacramento, sem condolências, no labirinto das cores, com uma mancha de sangue na pálpebra esquerda, e não me lembro bem do nome dos assassinos, é talvez demasiado e é talvez eu, pois as paredes de nossos silêncios constroem uma catedral de recordações, e cada qual chora na morte dessa cidade sua morte de bolso num espelho oval.
RODNEY SAINT ÉLOI
Nascido em Cavaillon. Publicou Graffiti pour l’Aurore (1989), Voyelles Adultes (1994), J’Avais une Ville d’Eau, de Terre et d’Arcs-en-Ciel Heureux (1999).
fonte poética: www.antoniomiranda.com.br






