Archive for janeiro 19th, 2010

pensando a Poesia com Ricardo Silvestrin e Nei Duclós

SILVESTRIN

No domingo 17 de janeiro de 2010, em vez de falar da vida alheia, Ricardo Silvestrin dá início ao Projeto Diálogos, uma conVersa com poetas que admira…
Diálogos é uma idéia genial, que venha para ficar!
A série foi criada para o seu blog Poesia Alheia (http://www.silvestrin.blogspot.com/), que também está sendo compartilhada no Vidráguas.

O primeiro encontro, que girou até um arco-íris na praia dos Ingleses foi com Nei Duclós.

Nei_duclos
Jornalista desde 1970, autor de sete livros publicados de poesia, romance, crônicas e literatura infanto-juvenil e alguns inéditos de ensaios e contos. Formado em História pela USP. Nasceu em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, em 1948.

Ricardo:
“Quem tomba primeiro ensina a tombar”?
Nei:
Sim, dá o mau exemplo. Tombar é um verbo muito caro a nós, poetas daqueles idos de 1969, tempo de guerra. O Marco Celso tem um poema belíssimo que termina assim: “Tombam os primeiros homens nos trigais”, que serviu de título para nosso primeiro livro, uma antologia, seleta de poemas do Celso e meus, mais os contos da Mariza Scopel. A partir desse “tombam” original fiz o “quem tomba primeiro ensina a tombar”, que é um apelo à resistência. Gosto do verbo, gosto do seu som de tambor, de corpo que bate no chão, faz barulho, convoca, alerta, reclama. Agora eu pergunto: Você é um poeta estranho, presta uma atenção danada no que os outros escrevem, rema contra o autocentrismo tão comum no nosso ofício. Quem te deu régua e compasso para seres assim, completamente diferente dos teus pares? Como aconteceu esse milagre?

Ricardo:
Tombar e tambor. Belo anagrama. Lia esse verso do teu poema também pelo lado positivo. Claro, fora do sentido político, de luta, que, como disseste, era preciso não tombar, resistir. Mas vejo também pelo lado humano, de aprendizado de vida. Quem cai primeiro, e todo mundo cai e levanta na vida, ensina a cair. É preciso saber cair pra saber se levantar. A gente não acha que possa cair, até que cai. Então, é preciso saber que se cai, que é assim mesmo. Quem cai primeiro avisa e vamos juntos, uns ajudando os outros a se levantar. Não era a tua leitura, mas li isso na tua escrita. Quanta a sair do autocentrismo, comecei a gostar de escrever poesia depois de ler aos 15 anos a Antologia Poética do Manuel Bandeira. Foi uma descoberta. E segui descobrindo, Drummond, Mario de Andrade, Oswald, Nei Duclós com o Outubro e continuo descobrindo até hoje. Ganhei de presente no mês passado em São Paulo o livro do Carlos Felipe Moisés, Noite Nula. Era um evento na Casa das Rosas. É um livro maravilhoso. Há poemas excelentes como um dedicado a um lutador de boxe americano. Adoro ler boa poesia. Meus amigos João Angelo Salvadori, Ricardo Portugal, Alexandre Brito, Ronald Augusto, meu irmão Roberto, o compositor Ênio Filho (o Foca), fomos juntos escrevendo e mostrando uns para os outros durante os últimos vinte anos. Daí surgiram a Coolírica, a coleção Petit Poa, a ameopoema, as bandas Os 3 Poetas, os poETs. Fomos a Manaus com os poETs a convite do ótimo poeta Aníbal Beça, gente finíssima que morreu há pouco. Fomos a Brasília e convivemos com Nicolas Behr, Turiba, Paco Cac, Fred Maia, Portugal. Há anos visito a Alice Ruiz e ela me visita. O bom da arte e da vida é compartilhar. É bom lembrar que a gente está vivo por um tempo. Se não aproveitar, perdeu a viagem. Pergunto: vejo na tua poesia e na tua geração uma aguçada visão dos jogos de poder. Não são bobos de hoje. Farejam um canalha a quilômetros de distância. Isso foi aprendido na prática, é marca de um tempo, é bossa de geração? Essa visão de vocês faz muita falta hoje.

Leiam seus livros
capalivro

E
10968g

Leiam todo o Dialógo aqui ou nos blogs dos autores:

http://outubro.blogspot.com/

e

http://www.silvestrin.blogspot.com/

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sublimações…

Foto_Ricardo_Hegenbart

Anais

Não me vejo nas coisas como elas são.

Quero ser um poeta tecido por carne
e livre de pontos.

Quero ser aquela nuvem atrás do pensamento.

Poema: Carmen Silvia Presotto, p. 47, Encaixes, Vidráguas.
Foto: Ricardo Hegenbart, outono em Londres- Green Park, 2009.