Archive for janeiro 20th, 2010

amor

AMOR

Ao amor, como ao pássaro, ao caminhar
junto às águas, ao prender os cabelos
da mulher com gestos de amizade,
cabe sensações de arrebatamento

estar em algum lugar e encontrar
o sentido de estar presente: não a necessidade
que se utiliza de artimanhas
para nos manter vivos, não a lealdade
que nos conduz à unicidade dos caminhos

não a felicidade que é predisposta
ao encurvamento: o arrebatamento
de não haver sentido quando a vida
se resume em estarmos juntos.

(Pedro Du Bois, inédito)

sinto saudade

“A SAUDADE CORTA COMO AÇO DE NAVALHA”

por Tânia Du Bois

“A saudade, no silêncio / das sombras que vem e vão, /
é um deslocamento da alma, / uma desencarnação…”
(Mansueto Bernardi)

Quem nunca sentiu a saudade cortar o peito? Sentir saudades foge à minha capacidade de compreensão; é a mais difícil tradução da emoção.

A saudade retrata a sensibilidade em detalhes. É cálida e cortante. A palavra foge. A emoção se confronta com a lógica. “Saudade já saudade / antes saudade…”, disse Maria Teresa Horta

A dor da saudade de amor corta como aço. A dor da saudade de um ente perdido corta como fio de navalha. A saudade dos bons tempos faz-me sentir o perfume no ar e o vento na cara. A saudade do sorvete no inverno, caminhando contra o vento, coloca o sorriso no rosto. A saudade do primeiro beijo encoraja para o cotidiano. A saudade do bolo de laranja e do pudim de coco da avó tem gosto de vida.

Uma saudade não é igual à outra, não tem o mesmo peso. Um dia não é igual ao outro. Uma dor não é igual à outra. A saudade é a mesma, as situações que levam a senti-la mais ou menos é que fazem a diferença. “… a tudo isso oponho o que não sendo / já a saudade / é a saudade mesmo”, como observou Maria Teresa Horta.

Sinto saudade. Invento a palavra. Depois, reinvento as palavras para os diferentes momentos da vida. Crio o tempo. Agora, invento a poesia e esta, sim, pode ajudar a revolucionar a saudade, a mexer com os sentimentos e a incentivar a ponto de flutuar na magia das palavras e das lembranças, desvelando a saudade que ocupa espaço no coração.

Está faltando inventar a fórmula para a poesia estar presente nos desejos e nas necessidades, e este caminho só poderá ser aberto pelo coração, como fonte de inspiração com entorno e retorno, vinculada a uma diversidade que se amplia em diferentes linguagens: saudade sem medo do fio da navalha.