sinto saudade

“A SAUDADE CORTA COMO AÇO DE NAVALHA”

por Tânia Du Bois

“A saudade, no silêncio / das sombras que vem e vão, /
é um deslocamento da alma, / uma desencarnação…”
(Mansueto Bernardi)

Quem nunca sentiu a saudade cortar o peito? Sentir saudades foge à minha capacidade de compreensão; é a mais difícil tradução da emoção.

A saudade retrata a sensibilidade em detalhes. É cálida e cortante. A palavra foge. A emoção se confronta com a lógica. “Saudade já saudade / antes saudade…”, disse Maria Teresa Horta

A dor da saudade de amor corta como aço. A dor da saudade de um ente perdido corta como fio de navalha. A saudade dos bons tempos faz-me sentir o perfume no ar e o vento na cara. A saudade do sorvete no inverno, caminhando contra o vento, coloca o sorriso no rosto. A saudade do primeiro beijo encoraja para o cotidiano. A saudade do bolo de laranja e do pudim de coco da avó tem gosto de vida.

Uma saudade não é igual à outra, não tem o mesmo peso. Um dia não é igual ao outro. Uma dor não é igual à outra. A saudade é a mesma, as situações que levam a senti-la mais ou menos é que fazem a diferença. “… a tudo isso oponho o que não sendo / já a saudade / é a saudade mesmo”, como observou Maria Teresa Horta.

Sinto saudade. Invento a palavra. Depois, reinvento as palavras para os diferentes momentos da vida. Crio o tempo. Agora, invento a poesia e esta, sim, pode ajudar a revolucionar a saudade, a mexer com os sentimentos e a incentivar a ponto de flutuar na magia das palavras e das lembranças, desvelando a saudade que ocupa espaço no coração.

Está faltando inventar a fórmula para a poesia estar presente nos desejos e nas necessidades, e este caminho só poderá ser aberto pelo coração, como fonte de inspiração com entorno e retorno, vinculada a uma diversidade que se amplia em diferentes linguagens: saudade sem medo do fio da navalha.

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