uma aula de literatura, Shakespeare através da música
MÚSICA
Shakespearianas
por Celso Loureiro Chaves, p.7 de Z.H de hoje, Caderno Cultural

“Primeiro amor! Não estás acima de toda a poesia? Ou será que nesse nosso exílio mortal és aquela própria poesia da qual só Shakespeare conhecia o segredo supremo, o qual ele levou consigo…” Quem escreveu isso foi nenhum poeta, nenhum crítico literário ou comentarista da dramaturgia de Shakespeare. Foi um compositor, o francês Hector Berlioz, bem no início da sua sinfonia dramática Romeu e Julieta, talvez a melhor de todas as conjunções Shakespeare/música. No romantismo nascente daquela primeira metade do século 19, havia duas forças dominantes na música: Goethe e Shakespeare.
Mas bem que os compositores daqueles tempos poderiam dizer o que disse Jorge Luis Borges: “Há devotos de Goethe, das Eddas e do cantar tardio dos Nibelungos: Shakespeare foi o meu destino”. Goethe ficou para os germânicos e invadiu a ópera. Shakespeare se internacionalizou, também fez das suas na ópera, mas foi na música sinfônica que encontrou sua morada. Era um tempo em que os compositores estavam ensinando a orquestra sinfônica a contar histórias, e Berlioz logo mostrou como se musicava Shakespeare – com palavras e sem palavras.
Até Beethoven, que tinha Goethe nas veias, não deixou de se fascinar por Shakespeare. O seu primeiro quarteto de cordas já tem memórias de Romeu e Julieta e durante certo tempo ele cogitou uma ópera sobre Macbeth.
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Que deu em nada, como é óbvio, por absoluta incompatibilidade de gênios. Fazer ópera de Shakespeare é fácil – uma mudança de texto aqui, um final feliz ali, melodias jogadas sobre as palavras, uma troca esperta de harmonia… e está feito o carreto. Do Otelo de Rossini em 1816 ao Lear de Aribert Reimann de 1978, essa é árvore de muitos frutos. Há quem diga, no entanto, que com o novo papel da orquestra nos tempos dos 1830, Shakespeare se sentiu mais em casa na sala de concertos do que no teatro de ópera. Tudo iniciou mesmo com Berlioz, que encheu o seu Romeu e Julieta de texto mas que quando chega a crucial cena do balcão coloca mordaça nas vozes e faz com que a orquestra substitua as palavras. Ora, ouvindo a música compasso a compasso e lendo o texto de Shakespeare linha a linha, precisar de vozes quem há de?
Os russos, esses se tomaram de amores pela dramaturgia shakespeariana. Tchaikovsky não se contentou com uma visita – foi logo fazendo quatro. Romeu e Julieta, que Ray Conniff transformou em shabadabada pop, A Tempestade e Hamlet em dobro. Uma vez como peça para orquestra contando a história do há algo de podre no reino da Dinamarca e também como música incidental para encenação no teatro, que não há quem se negue a dar uma mãozinha musical às peças do bardo inglês. Música de teatro e Shakespeare são duplas inseparáveis. Há o caso clássico do ultra-romântico Mendelssohn que primeiro compôs uma abertura Sonhos de uma Noite de Verão e depois foi seguindo a peça cena a cena até chegar à marcha nupcial que anima casamentos e à marcha fúnebre que depois Mahler retomou na primeira sinfonia. Quando a música dos judeus foi banida pelos nazistas, lá se foi o nazistão Carl Orff substituir a trilha sonora de Mendelssohn com uns acordes que não ficariam mal num restaurante de gastronomia, digamos, mexicana.
E a música shakesperiana veio vindo. Liszt e o seu Hamlet. Balakirev e o seu Rei Lear. Edward Elgar e o seu Falstaff. Mas já chegava o tempo do cinema. E se antes o casamento indissolúvel era entre teatro e música, agora passava a ser entre cinema e música. A maior de todas as trilhas sonoras shakesperianas chegou às telas em 1964, o Hamlet de Shostakovich.
Sabe-se lá se são os enquadramentos bem estudados do diretor Grigory Kosintsev ou a interpretação acima de qualquer suspeita de Innokenty Smoktunosvky: o certo é que a música de Shostakovich é o que se quer, se vamos enfrentar essa salada de frutas que mistura cinema, música e Shakespeare… em russo.
Enfim, Shakespeare e música têm produzido obras inesquecíveis. Eu ficaria com apenas duas, na inevitável escolha da ilha deserta. O Romeu e Julieta de Berlioz, é claro, de 1839. E Such Sweet Thunder de Duke Ellington, de 1957. Duke Ellington? O do jazz? O compositor híbrido que não se sabe bem como classificar, se do lado de lá do jazz ou do lado de cá do erudito?
Pois então: também ele compôs a sua “suíte shakesperiana” com seu parceiro eterno Billy Strayhorn. Os personagens estão todos lá, em retratos musicais que nem o próprio Shakespeare teria imaginado: Otelo e Desdêmona, o casal Macbeth, Romeu e sua Julieta, a megera domada, Puck e as criaturas mágicas de Sonho de uma noite de verão e também Demétrio e Helena, Lisandro e Hérmia, Oberon e Titânia. A misturar Duke Ellington e Hector Berlioz, então. Por que não? Das misturas mais esdrúxulas surgem às vezes os sabores mais inenarráveis.
* Músico.
CELSO LOUREIRO CHAVES*