pensando a Poesia com Fernando Pessoa

“… o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente
…”

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“…A palavra contém dois elementos – esse elemento presentação e o elemento ritmo. Na literatura em prosa, o ritmo é uma consequência e um elemento subordinado. Na poesia inverte-se essa situação, e o ritmo passa a ser o elemento predominante. Assim, num sentido, que é o de que aqui nos servimos, a poesia se opõe à literatura. A poesia parte da emoção, a prosa da inteligência. Por isso não é permitido ser confuso em prosa, a não ser que essa prosa seja poesia. Em poesia a clareza não é necessária, desde que o ritmo o seja.


O ritmo e o sentido – um poema é uma obra literária em que o sentido se determina através do ritmo. O ritmo pode determinar o sentido inteira ou parcialmente. Quando a determinação é inteira, é o ritmo que talha o sentido, quando é parcial, é no ritmo que o sentido se precisa ou precipita. Na tradução de um poema, portanto, o primeiro elemento a fixar é o ritmo.

Três tipos de poetas – poetas de profundeza (pensamento), em que a base inspiracional é uma idéia, uma compreensão, interpretação das cousas; – poetas de construção, em que a base inspiracional é o assunto, isto é, uma cousa vista como um todo composto de detalhes; – poetas de intensidade, em que a base inspiracional é consoante o grau de sensação que uma cousa desperta.

Poetas pensadores – são de três espécies: – aqueles em que o poeta e o personagem estão absolutamente fundidos (Anthero); – aqueles em que o pensamento e a expressão poética d’ ele se acham inteiramente separados, de modo que o pensamento é conscientemente posto em verso, ainda que sendo a natureza artística intensa, em magnífico verso (Goethe em parte); Hugo às vezes; os poetas do século 18; – aqueles em que o pensamento é pensado poeticamente, mas não realizado com perfeito (e artístico) afastamento; nem com fusão modeladora em perfeita arte, do pensamento (Bocage, Wordsworth, Pascoaes).

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O ritmo e a onda – o movimento de qualquer composição literária é o da onda. Divide-se em 3, 4 ou 5 tempos esse movimento, consoante a maneira como se decomponha para a nossa análise. O movimento da ode consiste essencialmente em 3 tempos, e, como o da ode, o de toda poesia lírica. O movimento está tradicionalmente gravado na estrofe, antiestrofe e epodo da ode grega. O primeiro tempo corresponde à lenta subida da onda, ao chegar à praia; o segundo movimento corresponde àquele tempo em que a onda reflui sobre si própria, curvando-se; o terceiro tempo corresponde àquele gesto da vaga quando, findo o movimento anterior, se espraia e alonga pela areia. Assim, pois, as relações entre a estrofe e a antiestrofe são as seguintes: a antiestrofe procede da estrofe ou prolonga-a; e, ao mesmo tempo, opõe-se-lhe; assim como, ao fazê-lo, a faz culminar. As relações entre a antiestrofe e o epodo são análogas, posto que não iguais. O epodo ao mesmo tempo que prolonga a antiestrofe, liga, por cima d’ ela, com a estrofe; e, ao fazer isto, completa o movimento ideativo posto na estrofe, que a antiestrofe ao mesmo tempo prolongou e interrompeu. É o movimento tese-antitese-síntese da dialética platônica. Foi a grande descoberta dos gregos na arte esta da estruturação.


Fica, desde já, compreendido porque é que o final dos poemas e das outras obras literárias da Grécia é calmo; porque o fim da onda, o seu espraiar-se está ao mesmo nível que o princípio, e o princípio tem de ser calmo, porque é o princípio. O fim regressa ao nível do princípio.
O lirismo puro – conhece-se a poesia lírica pelo fato de ser quase desprezível a ideação ou o sentimento para existir uma boa poesia lírica. Assim o “Ai flores, ai flores do verde pino” ou o “levantou-se a velida” de D. Diniz, rei de Portugal, são poesias líricas maravilhosas conquanto contenham uma insignificante base ideativa ou mesmo emocional. É o lirismo puro. Claro está que, dentro deste lirismo, a poesia será tanto maior quanto mais idéia e emoção contém. O lirismo de Burns é parco ao lado do de Shelley…”

Teresa Rita Lopes, Pessoa inédito, Lisboa: Horizonte, 1993
*(capit. 7: A palavra e a voz – sub-cap. 7.1 Sobre a arte literária – pag 382 a 388)
A autora do livro traz como “sem data” os textos inéditos de Fernando Pessoa.

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