Archive for fevereiro 1st, 2010

A INTERRUPÇÃO DO ROSTO, poemas de Portugal

A INTERRUPÇÃO DO ROSTO

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1. interrupção da boca

Onde um astro havia que queimava à distância os lábios
por causa da ignorância que de si crescia na boca
como uma pedra fria escurecida

2. interrupção dos rios

lavravam os rios as pessoas sem terra
encardiam as mãos e os pés com o mistério
dos choupos acesos pela água e deles dos rios
guardavam apenas o rumor que se lhes ouvia
ao atravessarem juntos o tronco nu da tarde

3. interrupção das palavras

a madeira chegava à cidade para
construir casas e acender lareiras
toros que vinham de longe
da luz rápida das inclinações sobre os rios
que no seu sangue deixavam a imitação
do movimento
que vinham das vésperas do gesto largo
de vidro do machado inicial
onde o olhar não penetra a bruma
são vazias as palavras
sem o sangue dos primeiros nomes
bestas que nascem mesmo assim
lembram ausências
em casas a que se perdeu a chave

4. interrupção das casas

as pessoas guardavam os cobertores e os lençóis
em arcas que arrumavam sob a luz tardia
como se preparassem os minutos para a noite
e quando chovia olhavam pela manhã da janela
a curva da rua que tomavam para o trabalho
onde a água no inverno se acumulava muito funda
e quando ao fim do dia chegavam a casa fechados nos muros dos passos
bocejavam de fome e sono o frio que traziam para as mesas
as casas são palavras com paredes
frases que chamam pelo calor de um nome habitado
aqueles que a elas regressam

5. interrupção dos cabelos

as pessoas traziam os cabelos apanhados
e na algibeira pedaços de silêncio que recolhiam
os seus avós nas aldeias debruçavam-se sobre as horas da terra
para apanhar as batatas
espreitavam por hábito ao fim do dia o avanço da vida
na porca parideira no pocilgo e antes do deitar
ouviam em pequenos rádios canções que os ponteiros
do relógio decoravam como decoravam o seu caminho
não é fácil os cabelos esquecerem a linguagem idêntica do vento
transformarem-se em arame

6. interrupção do olhar

o olhar das pessoas parava no ruído da areia pisada
e no mato dos bosques que da acidez da luz
não protegia
das casas altas do tempo não havia notícia
ou da forma como o mar recebe a curva larga das gaivotas
os peixes que a profundidade guarda
e desse mar algas havia que queimavam os olhos
e eles por isso o ignoravam como se ignora o mundo

7. interrupção do rosto

como pode o rosto ser contínuo
sem o vidro da memória
que do sono se não levanta
como se pode
com a poeira das pedras continuar o rosto

8. interrupção do silêncio

vestem camisas engomadas as pessoas
para calar os murmúrios que se escapam
da nudez dos troncos sob a luz trémula da tarde
procuram no silêncio o casaco para o frio
e o ruído dos carros que passam nas suas ruas descendentes
é abafado e perde-se no esquecimento da curva em que terminam
as cidades despem aqueles que morrem longe dos rios
de que perderam o risco sussurrante nos mapas
e bebem o mosto do seu silêncio

9. interrupção da fala

dificilmente se calçavam de manhã as botas
ocupadas que estavam pela sombra das palavras
recolhia-se o reboco do chão junto às paredes
da interrupção da fala sabemos porque
no muro precário das palavras ficou
a impressão forte de uma mão a cor de sangue
o primeiro gesto
de quem entra nessas casas de barro
à beira do deserto.

António Amaral Tavares
leia mais poemas do autor em seu blogue: http://acasaquecaminha.blogspot.com/

*hoje publicamos todo o poema que na semana passada apresentáramos em fragmentos.

além das letras, há vida…

ROBERTO PIVA: “ALÉM DAS LETRAS? HÁ VIDA.”*
por Tânia Du Bois

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A vida é feita de pequenos momentos e grandes voos. Na busca por livros; na busca pela qualidade da literatura; na busca pelas obras de que mais gostamos, os escritores podem garantir agilidade que nos fazem voar cada vez mais, simplesmente.

Seja pela leitura, por autores independentes, juntos voaremos ainda mais alto, quando nos lembramos de autores como Roberto Piva, que com competência revolucionou a linguagem-escrita em forma de criatividade e novidades. Seus primeiros poemas foram publicados em 1961, quando tinha 23 anos. Piva formou-se em sociologia e foi professor de Estudos Sociais e História.

Segundo João Silvério Trevisan, “em suas aulas aos adolescentes do segundo grau, costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar.”

A criação dos poemas de Roberto Piva teve rara influência na literatura brasileira, porque seus textos aliam transgressão a um notável conhecimento e saber.

Sua obra é referenciada pelos filósofos e poetas que extrapolam os limites da expressão racional, como podemos ver no seu poema Libelo:


“Não mais trarei justificações / Aos olhos do mundo. / Serei incluído /
“Pormenor esboçado” / Na grande bruma. / Não serei batizado, /
Não serei crismado, / Não estarei doutorado, / Não serei domesticado, /
Pelos rebanhos / Da terra. / Morrerei inocente / Sem nunca ter /
Descoberto / O que há de bem e mal / De falso ou certo / No que vi.”

Leia toda a crônica
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