Archive for fevereiro 3rd, 2010

teias

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Tão reais
quanto as sombras da Lua
vivem as quatro faces da Vida.

Carmen Silvia Presotto

pensando a Poesia de Poe com Cortázar

“…O poeta entende a poesia segundo seus próprios poemas…”
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É provável que ele (Poe) acreditasse sinceramente que um poema podia ser escrito de fora para dentro; mas, embora vigiasse como poucos o processo de sua criação, escreveu os seus como todos os poetas, aceitando o que vinha pela ponte do indefinido e pondo em ordem estética, em criação rítmica de beleza, a outra ordem mais profunda e incompreensível.

Assim como o poeta não deve se propor a verdade como fim, nada tem tampouco que ver com a moral, com o dever. Sua finalidade não é moral alguma extraível do seu tema, e um poema não deve ser uma alegoria, a menos que esta aponte para fins meramente exaltadores. Mas não basta que um poema esteja livre de didatismo e de “mensagem”; é preciso, ainda, que não seja um produto da paixão. A paixão exalta os corações, mas não as almas, o humano do homem e não sua partícula imortal. O poeta não pode prescindir de suas paixões, mas as incorporará ao poema como estímulos imaginativos e, não, como paixões em si.

O poema visa, por via da beleza, a mostrar ao homem o paraíso perdido, a entreabrir as portas que a vida terrena mantém fechadas. A poesia, conforme a definirá finalmente, é a criação rítmica da beleza: a definição é funcional, pragmática, artística. É uma definição mais para uso do poeta do que para a iluminação de leitores de poética. Mas em seu tom deliberadamente técnico busca salvaguardar a liberdade da poesia, sua condição de produto puramente imaginativo; a idealidade – tal como a entendiam Poe e os frenólogos do seu tempo, ou seja, a faculdade puramente criadora do homem – é a única fada presente neste batismo da princesa Poesia.

Nem veículo doutrinário, nem artifício alegórico, nem arrebatamento apaixonado, o poema é um produto livre e desinteressado da imaginação do poeta. Poe o repete com bonito entusiasmo: “ A verdade é que, se nos atrevêssemos a olhar no fundo de nosso espírito, descobriríamos imediatamente que sob o sol não há nem pode haver uma obra mais digna nem de mais alta nobreza que esse poema, esse poema per se, esse poema que é um poema a nada mais, esse poema escrito somente pelo poema em si”.

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