pensando a Poesia de Poe com Cortázar
“…O poeta entende a poesia segundo seus próprios poemas…”

É provável que ele (Poe) acreditasse sinceramente que um poema podia ser escrito de fora para dentro; mas, embora vigiasse como poucos o processo de sua criação, escreveu os seus como todos os poetas, aceitando o que vinha pela ponte do indefinido e pondo em ordem estética, em criação rítmica de beleza, a outra ordem mais profunda e incompreensível.
Assim como o poeta não deve se propor a verdade como fim, nada tem tampouco que ver com a moral, com o dever. Sua finalidade não é moral alguma extraível do seu tema, e um poema não deve ser uma alegoria, a menos que esta aponte para fins meramente exaltadores. Mas não basta que um poema esteja livre de didatismo e de “mensagem”; é preciso, ainda, que não seja um produto da paixão. A paixão exalta os corações, mas não as almas, o humano do homem e não sua partícula imortal. O poeta não pode prescindir de suas paixões, mas as incorporará ao poema como estímulos imaginativos e, não, como paixões em si.
O poema visa, por via da beleza, a mostrar ao homem o paraíso perdido, a entreabrir as portas que a vida terrena mantém fechadas. A poesia, conforme a definirá finalmente, é a criação rítmica da beleza: a definição é funcional, pragmática, artística. É uma definição mais para uso do poeta do que para a iluminação de leitores de poética. Mas em seu tom deliberadamente técnico busca salvaguardar a liberdade da poesia, sua condição de produto puramente imaginativo; a idealidade – tal como a entendiam Poe e os frenólogos do seu tempo, ou seja, a faculdade puramente criadora do homem – é a única fada presente neste batismo da princesa Poesia.
Nem veículo doutrinário, nem artifício alegórico, nem arrebatamento apaixonado, o poema é um produto livre e desinteressado da imaginação do poeta. Poe o repete com bonito entusiasmo: “ A verdade é que, se nos atrevêssemos a olhar no fundo de nosso espírito, descobriríamos imediatamente que sob o sol não há nem pode haver uma obra mais digna nem de mais alta nobreza que esse poema, esse poema per se, esse poema que é um poema a nada mais, esse poema escrito somente pelo poema em si”.

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Edward Shanks vê em Ulalume “ um poema que transfere do poeta para o leitor um estado mental que nenhum dos dois poderia definir em termos precisos”, e o considera inicio da escola simbolista e decadente que os franceses levariam às ultimas consequências. Como que lhe dando razão, como que admitindo esta ponte quase mediúnica pela qual a poesia passa do poeta ao poema e ao leitor, Poe tem um texto que me parece suficientemente eloquente. Falando de Tennyson, diz: “há nas suas obras passagens que me dão a confirmação de uma convicção muito antiga, a de que o indefinido é um elemento da verdadeira poiesis…”
A leitura de tudo o que Poe escreveu acerca da poesia deixa clara uma conseqüência que é quase um truísmo. O poeta entende a poesia segundo seus próprios poemas, olha-a a partir deles e com eles, e as reflexões posteriores estão forçosamente subordinadas à matéria poética elementar, a que toma forma no verso. Numa de suas resenhas lemos: ”Não há maior engano do que crer que uma autentica originalidade é mera questão de impulso ou de inspiração. Originar consiste em combinar cuidadosa, paciente e compreensivamente”.
Os traços gerais de sua poética tornam-se precisos, sobretudo, no texto que ele chamou normativamente de O princípio poético. Poe utiliza expressão técnica, o trabalho do poeta como combinador de uma receita metafísica: mediante combinações multiformes das coisas e dos pensamentos temporais. A técnica é severa e exige importantes restrições. O poema é coisa estética, seu fim é a beleza. Outra de suas resenhas é Filosofia da composição, na qual explica ao publico a mecânica da composição de “O corvo”.
Poemas de Edgar Allan Poe: O corvo; Annabel Lee; A Helen; A Annie; Os sinos; The sleeper; Israfel; Dreamland; The city in the sea; The haunted palace; The conqueror worm.
Fonte: CORTÁZAR, Júlio Valise de Cronópio São Paulo: Perspectiva, 1995 – trad. de Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa- (capit 5 : Poe: o poeta, o narrador e o critico – p. 113 a 120)