o cão, um poema de Portugal

O CÃO

parkeharrison-luciddreame1

Um homem perdeu o seu cão
aquele que noite e dia guardava uma torre
que do seu alto congregava com um uivo na boca a paisagem
que do cimo de um monte convocava as estrelas vadias
o que enterrava ossos de vento para mais tarde os desenterrar em flor
o devorador de insectos
de areia molhada
o amante da cidade irremediável
das sarjetas que é para onde escorre a chuva
o que procura uma lua em qualquer lugar isolado da terra
o que marcava as árvores com a urina das estátuas
o que fareja cancros na flor universal
o que vomita com um olho triste o veneno dos homens
o que morde joelhos
o cão mascote que abençoa uniformes de guerra
o que fabricava sapatos para depois amorosamente os roer
o que há-de morrer na berma da estrada.

Lamento das ervas.

Poema: António Amaral Tavares
Fotografia: Robert Parkcharrison

*Leia mais poemas no blogue do autor: http://acasaquecaminha.blogspot.com/

Tags: ,

deixe um recado