pensando a Poesia com Mário Faustino
“…Na poesia está a origem das línguas.”

- Que é poesia? Nenhum de nós pode pretender, lucidamente, apresentar, sobre isto, um conceito definitivo. O mais que podemos fazer é procurar estabelecer, discutindo o assunto por algum tempo, o que representa para nós, a esta altura, aquilo que chamamos de “poesia”. Jovens poetas que somos, em período de formação, não devemos frear nosso desenvolvimento com a construção de conceitos e definições pretensiosamente fixos e rígidos.
A beleza do mundo pode ser ou não ser, dependendo da habilidade do artista, captada através da música, da pintura, da escultura, da dança, ate da arquitetura que, felizmente para os arquitetos, é a arte menos sujeita a tais ingenuidades. Fixado esse ponto (em resumo: que não nos interessa, nesse momento, o conceito vulgar de “poesia” vagabunda, ave caprichosa pairando sobre o mundo, surgindo ou pousando neste ou naquele cenário ou objeto) podemos aproximarmo-nos um pouco mais de um conceito de poesia (arte poética, é claro) se dissermos que se trata antes de tudo de uma maneira de ser da literatura, ou seja, da arte da palavra, da arte de exprimir percepções através de palavras, organizando estas em padrões lógicos, musicais e visuais.

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Essa organização de palavras em padrões que excitam ao mesmo tempo o pensamento e o olhar e o ouvido mentais daquele que lê (porque a arte literária é, hoje em dia, mais que qualquer outra coisa, literatura escrita), essa arte apresenta dois extremos, o absolutamente poético e o absolutamente prosaico, nem um nem outro dos quais jamais foi atingido, dentro ou fora do âmbito artístico da literatura.
Um estudo semântico da palavra “poesia”, em qualquer das línguas ocidentais, muito nos afasta tanto de sua origem etimológica, como do conceito filosófico que se lhe possa conferir. Porque a tradição, o uso, tem chamado de poesia a “beleza”, a “harmonia”, o “pensamento profundo”, a “imaginação”, a “emoção”, a “linguagem metrificada”, o “verso”, o “conjunto de poemas”, o “poema”, etc. – coisas que, está claro, não tem lá muito a ver com a poiesis dos gregos ou com a nomeação, a recriação do objeto em palavras.
Quando um escritor, colocando-se diante do objeto de sua criação, vê nascerem em sua mente palavras como que inteiramente novas, insubstituíveis e essencialmente intraduzíveis, que não glosam o objeto e sim o recriam em um plano verbal, batizando-o de um modo inexplicavelmente novo, tirando-o do caos em que parecia encontrar-se e colocando-o numa ordem nova – então esse escritor, queira ou não, esta caindo no poético – o que, dependendo do contexto e da intenção criadora indicada pelo próprio escritor, pode ser bom ou mau e resultar em obras primas ou medíocres. Por exemplo, se Blake dissesse, ainda que no melhor verso, qualquer coisa como “Ontem à noite, quando passeava na floresta, pareceu-me de repente ver brilharem na escuridão os olhos de uma fera” estaria sendo prosaico, e, conforme o talento empregado na escolha das palavras e no arranjo das mesmas, faria boa ou má prosa, ainda que em verso. Mas o que ele diz é: “Tigre, Tigre, ardendo fulgurante nas florestas da noite” – e isso é poético. Blake, sentindo a “novidade” com que naquele instante renascia, por exemplo, a palavra “tigre”, fez uso de uma grafia caprichosa, única: Tyger, com y – Tyger, Tyger, burning bright/ In the forest of the nigth.
O principal objetivo da linguagem poética é a criação (ou recriação, repetindo) de um objeto – ou de um conjunto de coisas, seres, ideias que, sob a forma de palavras – realidades se reúnem, através de todas as conotações possíveis, para formar um complexo, um objeto novo: o poema. Em seguida da criação deste objeto, o poeta faz uma doação, ou uma exposição desse objeto ao leitor ou ouvinte. (…) O poético não teria de ser compreendido, e sim percebido… No poético, o artista organiza, nomeia, reconstitui, recria o universo por meio de palavras-objetos, que doa, que oferece ao leitor ou ouvinte.
(…) Na poesia está a origem das línguas. Não parece haver dúvida, portanto, de que o processo de criação das palavras – processo por definição metafórico – aproxima-se extremamente, com ele se identificando, do processo criador da linguagem poética.
Fonte: FAUSTINO, Mario Poesia-Experiência São Paulo: Perspectiva, 1980, (capit 3: Que é poesia? p. 59 a 69)