Archive for fevereiro 21st, 2010

o espelho, um poema de Portugal

auto-retrato

O ESPELHO

Ele entrou como eu não esperava em minha casa
da ausência longa de espera numa garagem de outro.
Chegava quase inanimado no sujo afastamento do abandono

e a imagem mais funda era o abandono na sua face turva
de todas as que nela se viam.
Ninguém por muito tempo o olhara e provavelmente

seriam tudo o que vira as costas altas de um armário imanente
no imóvel deserto da sua guerra suspensa.
Ele entrou na casa que apreensiva o esperava

da distante espera na ausência de um olhar que o visse
ele era um rumor abafado pela poeira.
A camurça para o pó e o ruído forte do engenho

que terá ouvido furar a parede
trouxeram-lhe alguma da cor já quase perdida.
Tinha uma moldura em madeira de um vermelho

profundo como a encarnação bruta de uma vida
encumeada por uma rosácea dourada e envelhecida.
Ergui-o contra a parede. Parecia ter o peso

de todas as existências que nele atentas incidiram
e o seu peso ao pendurá-lo fez estremecer
a casa como a memória vaga de um sismo.

Não adiantou muito colocá-lo num canto
afastado do sofá onde habitualmente
me sento e também vivo.

Domina a sala com a sua presença obscura e desperta
a respiração baixa e firme
na contenção da luz que liberta.

Poema de António Amaral Tavares
Leia mais poemas do autor e de outros no seu blog:
http://acasaquecaminha.blogspot.com/

* Arte de Nestor Lampros