o espelho, um poema de Portugal

O ESPELHO
Ele entrou como eu não esperava em minha casa
da ausência longa de espera numa garagem de outro.
Chegava quase inanimado no sujo afastamento do abandono
e a imagem mais funda era o abandono na sua face turva
de todas as que nela se viam.
Ninguém por muito tempo o olhara e provavelmente
seriam tudo o que vira as costas altas de um armário imanente
no imóvel deserto da sua guerra suspensa.
Ele entrou na casa que apreensiva o esperava
da distante espera na ausência de um olhar que o visse
ele era um rumor abafado pela poeira.
A camurça para o pó e o ruído forte do engenho
que terá ouvido furar a parede
trouxeram-lhe alguma da cor já quase perdida.
Tinha uma moldura em madeira de um vermelho
profundo como a encarnação bruta de uma vida
encumeada por uma rosácea dourada e envelhecida.
Ergui-o contra a parede. Parecia ter o peso
de todas as existências que nele atentas incidiram
e o seu peso ao pendurá-lo fez estremecer
a casa como a memória vaga de um sismo.
Não adiantou muito colocá-lo num canto
afastado do sofá onde habitualmente
me sento e também vivo.
Domina a sala com a sua presença obscura e desperta
a respiração baixa e firme
na contenção da luz que liberta.
Poema de António Amaral Tavares
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* Arte de Nestor Lampros





